Antônio Delfim Netto
Antônio Delfim Netto
A primeira
mentira
Um presidente da República, militar, já falecido, costumava ensinar, lá pelos idos dos anos sessenta, que a primeira mentira é que mata... Nós tivemos um exemplo dramático da validade desta sentença quando um outro Presidente, civil e carismático, tentou engrupir a sociedade brasileira no início da atual década contando uma história fantástica de uma operação Uruguai: a partir desta historinha, nada mais se acertou em seu governo que terminou antes do prazo, com a renúncia do ator principal.
Essas coisas me vem à mente quando escuto os argumentos utilizados por alguns economistas e - lamento dizê-lo - pelo próprio Presidente quando tentam esconder da sociedade as verdadeiras causas do desemprego que hoje inferniza a vida dos brasileiros. Quando dizem ao cidadão que seu emprego desapareceu porque a economia brasileira passa por uma transformação tecnológica da maior envergadura, eles estão deliberadamente fugindo à realidade.
Se essa explicação fosse verdadeira, os Estados Unidos não teriam, hoje, a menor taxa de desemprego dos últimos 20 anos. Alguém pode ignorar que os Estados Unidos são o país mais desenvolvido tecnologicamente em todo o mundo? O desemprego que existe hoje na Europa e que continua crescendo no Brasil tem muito mais a ver com os problemas da política econômica do que com os avanços tecnológicos. Na França e na Alemanha as altas taxas de desemprego decorrem de políticas monetária e fiscal restritivas a que os governos se obrigaram para atingir o sonhado objetivo da construção dos Estados Unidos da Europa. Se o desenvolvimento da tecnologia fosse o fator prepoderante do baixo crescimento das economias e da violenta supressão dos empregos, o mundo estaria andando para trás desde o século dezoito e até mesmo desde o século dezesseis!
No caso brasileiro, é absolutamente falso atribuir o desemprego ao processo de absorção de tecnologia. As pessoas que foram dispensadas na agricultura não são vítimas do desenvolvimento tecnológico, mas porque se cometeram erros na política agrícola no início do Plano Real e no processo de abertura desembestado para as importações. Não houve desemprego porque melhorou a tecnologia na agricultura, como facilmente podem atestar os milhares de com terra e os milhares de sem terra para plantar...
Na indústria, não crescemos mais depressa porque permitimos a desestruturação do setor exportador, eliminando milhares de empregos. O erro cometido com a sobrevalorização cambial transforma a atividade exportadora no negócio menos rentável da economia.
Ao omitir esses fatos o governo, em lugar de criar condições para resolver os problemas, acaba gerando uma grande confusão na mente das pessoas. Inventa um enredo que vai ficando cada vez mais difícil de explicar. E o que é pior: transmite a idéia que nada pode ser feito, que a tecnologia vai continuar desempregando e que isso é inevitável. Essas proposições nunca foram comprovadas pela História e não o serão. O desenvolvimento tecnológico pode causar alguns problemas de transição que têm custos sociais importantes mas que duram pouco tempo e podem ser superados: rapidamente a demanda se ajusta e a estrutura produtiva se diversifica. Foi assim que o homem avançou nos últimos séculos de desenvolvimento tecnológico.
A dificuldade maior é quando não se diz a verdade desde o início...
- ANTÔNIO DELFIM NETTO, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento, é deputado federal (PPB-SP)





