Antônio Delfim Netto
Dependência
festiva
Ao lado dos benefícios que produziu nestes três anos, o Plano Real trouxe alguns problemas que precisam ser enfrentados. Nas festas que providenciou para comemorar os excelentes resultados do combate à inflação, o governo recebeu os habituais aplausos da mídia e foi reverenciado pelos empresários que, de quebra, entraram no jogo irresponsável de culpar o Congresso pela demora em aprovar as reformas. Essa postura, digamos, estrutioniforme mereceu o reparo do presidente do Congresso, que lembrou que o governo tem maioria nas duas Casas do Parlamento, como ficou demonstrado quando quis aprovar a reeleição. Se as reformas tardam, a responsabilidade é do Executivo, que, aliás, sequer enviou ao Congresso projeto para a reforma tributária.
As reformas administrativa e da previdência são importantes, mas os problemas mais graves da economia não decorrem da demora em aprová-las. O risco maior que o Brasil tem hoje é representado pela dependência externa: nos três anos do Real, o Brasil consumiu 75 bilhões de dólares que tomou emprestados lá fora para financiar o déficit em contas correntes. Se, eventualmente, os aplicadores externos tiverem necessidade de reduzir os empréstimos ao Brasil, não apenas perdemos os benefícios da estabilidade, mas retardamos ainda mais a retomada do crescimento.
Esse constrangimento externo - que já nos obriga a manter um baixo crescimento de 3% ao ano - foi construído pela sobrevalorização cambial. Privilegiaram-se as importações, enquanto as exportações transformaram-se na atividade menos rentável, resultando num déficit de 10 bilhões de dólares na balança comercial, nos últimos doze meses. Para cobrir o buraco, somos obrigados a oferecer altas taxas de juros que sustentem o interesse dos aplicadores externos. O déficit comercial, tomado mês a mês, deixou de crescer explosivamente no último trimestre, mas a verdade é que as exportações não reagiram e não apresentam perspectiva de crescer a curto prazo, pelo menos na medida necessária para reverter o quadro.
Embora também não exista perspectiva de redução do fluxo de recursos externos, pelo menos no curto prazo, não é uma boa aposta submeter nossas possibilidades de crescimento aos humores do mercado financeiro internacional, como mostra o recente exemplo da Tailândia. Enquanto não reduzimos a dependência externa, as taxas de juros internas têm que permanecer elevadas. Hoje, uma boa empresa de porte médio, com bom cadastro, não obtém crédito a menos de 2% ou 2,5% ao mês, o que significa 45% ao ano. Com índices de inflação em torno de 10% anuais, temos uma taxa de juros anual de 35% em termos reais. Por esta simples e cristalina razão, os empresários na indústria e na agricultura não têm disposição de ampliar os investimentos na produção. Não havendo crescimento da produção, não há melhor oferta de empregos.
Por mais brilho que tenham as festas em Brasília, por melhor que seja a performance do sr. Presidente na TV, os problemas sociais se agudizam, cai a renda e piora a distribuição. Felizmente - à margem das festas - assistimos esta semana ao Ministro Pedro Malan, que é um profissional competente, reconhecer a importância do problema de desemprego e do risco representado pelo déficit comercial crescente. Depois de 36 meses de negativas, já é alguma coisa positiva, mas é preciso convencer o governo a mudar os termos da aposta.
- ANTÔNIO DELFIM NETTO, ex-ministro do Planejamento e Fazenda, é deputado federal (PPB-SP)





