Antonio Delfim Neto
A elevação das taxas de juros em outubro do ano passado, para fazer frente à fuga de dólares durante a crise asiática, não teve nada de brilhante. Ela foi um gesto de defesa, necessário, mas de quase desespero diante da situação criada com a sobrevalorização do real. Apesar do enorme custo social que nos está sendo imposto em termos de queda do Produto e aumento do desemprego, há um grande esforço para convencer a sociedade que a política está correta, como ficou demonstrado com o grande aumento das reservas e com as crescentes manifestações favoráveis vindas do exterior. É claro que só podiam aumentar as aplicações externas e os aplausos, diante das generosas taxas de juros que praticamos...O esforço beira ao ridículo quando se recorre ao prestígio de um economista respeitado como o sr. Paul Krugman, tomando como elogio as observações que ele fez da situação brasileira, com extrema sutileza. Não há o que fazer - disse ele - porque a desvalorização é coisa para país branco! Com igual delicadeza perdoou os equívocos da equipe econômica: Paciência. Se a política econômica tivesse credibilidade, recomendaria uma grande desvalorização. Como não tem, é melhor ficar com os juros altos e o desemprego até melhor oportunidade...
Após tão sábias sentenças retornou o sr. Krugman ao seu primeiro mundo e nos deixa aqui matutando sobre quando chegará a oportunidade deste país não branco enfrentar o problema do desemprego que tende a se ampliar enquanto não corrigirmos a política de juros!
Outros gurus de notável saber, aqui e no exterior, tem nos oferecido explicações brilhantes sobre a questão do desemprego, tentando consolar-nos com o fato que neste particular nós somos iguais aos países brancos... e, portanto, devíamos nos orgulhar...É claro que o desemprego tem muitas causas. Existe o desemprego produzido pela transformação tecnológica, mas neste caso ele acontece num curto prazo, porque a demanda rapidamente se expande graças ao aumento da produtividade, criando empregos em outras atividades. Existe o desemprego friccional que ocorre quando as pessoas se deslocam de uma cidade para outra, de uma região para outra, mas é lógico que os empregos não deixam de existir em todos os lugares. Existe um desemprego estacional, como o que ocorre nos meses de janeiro e fevereiro, mas que depois se recupera. E existe, ainda, a desculpa da globalização, que ninguém sabe direito o que é.
Todas essas explicações são interessantes mas, no nosso caso, o desemprego já persiste há vários anos e seu ritmo acelerou por causa do baixo crescimento da economia. Poucas regiões do país estão imunes ao problema, o que está refletido no levantamento concluído pelo economista Marcio Pochmann, segundo o qual nossa economia parece ter perdido a capacidade de gerar empregos. Há regiões, como a Grande São Paulo, em que a situação é terrível, com 1 milhão e meio de desempregados, o que corresponde a 18% da força de trabalho. Isso significa que em cada 5 cidadãos, um está sem condições de trabalhar. Mesmo na Espanha, onde o desemprego é alto, não se atingiu este nível.
Por muitas que sejam as explicações, a causa fundamental do desemprego no Brasil é a ausência de crescimento econômico, consequência do erro da política cambial. A economia não cresce, porque o déficit nas contas externas nos obrigou a elevar os juros, o que não melhorou em nada a nossa credibilidade no exterior. É isso que quer dizer o sr. Krugman quando sugere que é melhor ficar com os juros altos e o desemprego, até melhor oportunidade....
- ANTONIO DELFIM NETO é deputado federal pelo PPB/SP e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento





