ANTES QUE SEJA TARDE - Projeto tira crianças das ruas
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de setembro de 2007
Célia Polesel<br>Reportagem Local 
Ariel de Castro Alves é presidente do Projeto Meninos e Meninas de Rua, ONG que atua desde 1983 em cidades da grande São Paulo com altos índices de exclusão e vunerabilidade de crianças e adolescentes. O projeto tem como objetivo promover o retorno dos meninos e meninas de rua para a família. Segundo Castro, a idéia é fazer parcerias com prefeituras e implantar o projeto em outras cidades. Em visita à Londrina, ele conversou com a FOLHA.
Como funciona o projeto?
Os coordenadores e educadores saem para a rua na tentativa de se aproximar, construir um vínculo com essas crianças e adolescentes. Porque elas estão em situação extrema, e muitas vezes não querem a aproximação de adultos. Aos poucos os educadores vão se aproximando, estabelecendo um diálogo, um vínculo. A partir disso essas crianças começam a frequentar a entidade, a fazer algumas atividades culturais, de lazer e esportivas, e vão estreitando as relações. Até que os educadores começam a perguntar sobre a família e tentam fazer a reaproximação.
Qual o diferencial?
A diferença é que os educadores não são pessoas que tiveram curso superior ou que se prepararam exclusivamente para a educação formal, mas que têm diálogo e isso facilita essa aproximação com os meninos. Muitos foram meninos de rua e conhecem a vivência, as formas de dialogar e até mesmo a linguagem mais adequada, isso facilita na criação de vínculos.
Quanto tempo existe?
Desde 1983. No começo foi apoiado por entidades ligadas às igrejas. Ela se formou em um período em que havia uma forte atuação dos grupos de extermínio na região do Grande ABC, todos os dias meninos de rua eram mortos. A primeira bandeira foi combater os grupos de extermínio, denunciar a atuação deles e depois começou-se a fazer o trabalho de tentar o retorno das crianças para a família.
Os meninos vão para a entidade, mas não moram lá?
Não, a entidade não tem abrigo, mesmo que ele vá participar de atividades no final da tarde, começo da noite volta para a rua. Até conseguir retomar os vínculos familiares, para que retorne em definitivo para casa.
Quantas crianças conseguiram atender?
É difícil, nos últimos anos tem mantido uma média de 400 crianças e adolescentes por dia. Agora os índices de sucesso ficam em torno de 20%. É difícil conseguir que a criança retorne, muitas vezes ela até vai para casa um período, mas acaba voltando para a rua. Porque o que faz com que vá para a rua geralmente é a violência doméstica, alcoolismo dos pais, situação de extrema miséria. E também não adianta só a entidade fazer esse trabalho para voltar, para manter o retorno é preciso programas sociais, política públicas governamentais para interferir na situação de vulnerabilidade das famílias, infelizmente faltam esses programas.
Quais atividades fazem no projeto?
Oficina de circo, de capoeira, têm apoio no ensino formal, na alfabetização, balé e esportes. Atualmente o projeto é mantido com o apoio do Conselho Mundial de Igrejas, uma entidade internacional com sede nos Estados Unidos, que nos apóia desde a criação, e alguns sindicatos e empresas.
Quais os objetivos?
A idéia é que o projeto possa crescer, fazer parcerias com várias prefeituras, mas há dificuldades. Infelizmente essa questão não é encarada como prioridade. Encontros da ONU em 2003 e 2004 na área da infância e juventude alertaram o Brasil exatamente para a falta de uma política nacional em relação aos meninos e meninas de rua. No âmbito federal essa questão praticamente não é tratada e muitos desses meninos acabam sendo depois os habitantes das unidades de internação, aqueles que se envolvem em atos infracionais, então faz parte de uma política de prevenção o trabalho com meninos e meninas de rua.


