Antes a revolução do coração - Walmor Maccarini
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 11 de setembro de 1997
Walmor Maccarini 
Ensina a sabedoria milenar que nenhuma revolução pode dar certo se não houver a revolução no coração dos indivíduos. No Brasil, hoje, as invasões de terras - a que chamam movimento - é uma guerra civil, e também não dará certo. Porque, por este caminho, nenhum assentamento frutificará, como não tem frutificado a maioria deles. E a reação armada dos donos das terras também não aplacará a fúria das hordas invasoras.
Desde que Moisés tirou seu povo do Egito em busca da Terra Prometida o homem luta, até os nossos dias, pelo domínio de territórios. Porque nunca soube dividir o coração e portanto não saberá dividir a terra.
Se não há um projeto para ocupação e uso inteligente da terra, em vão obrarão os que a tomam pela força, porque isto é assalto, é usurpação, e sobre tais alicerces nada que se edificar será duradouro. Quem semeia sementes de maldição colhe frutos de maldição.
Nós sabemos que não são estas as palavras que os envolvidos no processo e aqueles que os incentivam e apóiam querem ouvir; querem, antes, a justificação de soluções violentas, como a tomada da terra dos outros, esquecidos de que elas custaram o sacrifício de gente que lutou uma vida para adquiri-las e mantê-las.
Se esta é uma questão de segurança nacional e de manutenção da lei e da ordem pública, seria de esperar a intervenção das Forças Armadas, mas como imaginar isto sem derramamento de sangue? Como explicar ao mundo que o governo não estará fazendo o jogo dos latifundiários, dos grandes proprietários de terras improdutivas, do poder econômico representado por gordos e saudáveis fazendeiros, contra os fracos e oprimidos!? As coisas não são assim, mas num momento em que segmentos da mídia nacional começam a crucificar até a princesa Diana, só porque nobre e bela e porque o mundo inteiro chorou a sua morte, o que não fariam com indefesos fazendeiros!? Sim, porque os indefesos, hoje, são os donos de propriedades que geram empregos e semeiam riqueza.
A solução só virá pela via das negociações, mas se não houver uma revolução na consciência dos indivíduos elas também resultarão inócuas, porque cedo ou tarde as partes que se julgaram prejudicadas revidarão. Será a guerra do sem fim.
O governo tem que tomar as rédeas da situação e presidir o conflito, e com rapidez, porque do jeito que as coisas vão é esperar o pior.
Ao dono da terra é proibido defender-se - e se o fizer pagará caro e será execrado - mas o invasor pode agir à vontade...
Já passa do tempo de promover uma reforma agrária, porque o problema não é de hoje, mas neste país de vocação agrícola, com terras agricultáveis de norte a sul, e o ano inteiro, nem uma política para o campo existe. Nada contempla o agricultor que já está na terra. Ele é um com-terra excluído, a ponto de nos centros urbanos e nos gabinetes governamentais ser qualificado de bronco e caipira.
Mas, e o alimento que nos chega à mesa, de onde será que vem!? Ninguém se lembra que o produto exposto nas gôndolas dos supermercados tem uma origem, que passa pelo suor do rosto e pelas mãos grossas e calejadas do homem da roça.
O sem-terra e a militância imaginam que agricultor é tudo fazendeirão rico.
A Natureza Divina provê e dispõe tudo, e há em abundância para todos, mas para enxergar isto o homem teria que passar pela revolução do coração... O caminho é apenas este, porque há milhares de anos a humanidade vem optando pela via do conflito para acomodar-se aqui neste chão terreno; mas não consegue, e por este meio não o conseguirá jamais!
Lê-se por aí, nos artigos de opinião e nas cartas dos leitores, mil e uma fórmulas de solução para a divisão dos bens terrenos - que nem nos pertencem individualmente mas pertencem a todos, porque são dádivas de Deus -, porém tais soluções só se estribam na força, na reação, na luta, no movimento, no ato público, na defesa raivosa da cidadania. Nenhuma proposta de desarmamento de espíritos, nenhum indicativo que se alicerce na sábia estratégia, na boa vontade, na contenção da ira, no companheirismo, na fraternidade.
Os líderes da militância e certos paparazzi de grande poder na mass media nem conseguem administrar bem estes valores tão estranhos... Porque, para eles, tudo tem que ter bandeira de luta. Negociar e eventualmente ceder, nem pensar, porque é demonstração de fraqueza, não está na cartilha e não é politicamente correto.
O homem enterrou demais os pés na terra, criou raízes fundas e agora não consegue desprender-se. Porque perdeu a memória de que acima do egoísmo que o mantém preso à materialidade está o poder maior, que a tudo assiste, paciente e compassivo. Ao invés de, pela dádiva dos bens terrenos, libertar-se pela graça de tê-los, o homem torna-se escravo deles, assume atitude de incontrolável ganância, vira bicho e devora o companheiro.
Tanta emanação de ira leva à fermentação dessa ira, e a resultante é o transbordamento, que de roldão atrai mais pobreza e miséria, aniquilamento, doenças, pragas e pestes, o retorno de moléstias tidas no passado como extintas; gera até desequilíbrio na natureza e males de toda ordem que se derramam sobre a própria humanidade.
Tudo o que vimos colhendo temos semeado.


