Anos de chumbo ou anos dourados?
PUBLICAÇÃO
domingo, 24 de agosto de 2014
Weber Atos Vanzo 
Ao ler o artigo "Comissão de uma verdade", escrito pelo médico Paulo André Chenso (Espaço Aberto 18/8), é impossível não comungar do mesmo pensamento, carregado de lucidez, raciocínio lógico, desprovido de fantasias e mentiras.
Em março de 1964, contava eu com 7 anos de idade, mas posso dizer pelo que vivi em anos posteriores, período que se denomina ditadura militar. Ingressei no ensino público, desde o primário até a universidade, e o ensino era um dos melhores que existiam. Todos os dias, invariavelmente, cantava-se o Hino Nacional antes do ingresso em sala de aula, na qual os alunos adentravam de forma ordeira aguardando o professor, que era respeitado em todos os sentidos. Hoje o Hino Nacional é cantado (muitas pessoas fazem dublagem por não saberem a letra) por ocasião de jogos da seleção brasileira de futebol, e o ingresso nas salas de aula é uma verdadeira baderna. Os professores são desrespeitados, agredidos, quando não ameaçados de morte. Atualmente, vale a regra: faz de conta que eu ensino e você faz de conta que aprende!
Curioso é ver as propagandas do atual governo ao dizer em verdadeiro pleonasmo: "País rico é país sem pobreza". Eu diria melhor: "País rico é aquele que constrói escolas, país pobre é aquele que constrói presídios". Compete aos brasileiros avaliarem o nosso estado de "riqueza".
E a saúde pública? No governo militar, praticamente não existiam as infinidades de planos de saúde da atualidade. Todavia, os atendimentos eram realizados no antigo INPS, e não haviam os absurdos de filas de espera que se observa nos atuais Pronto Atendimentos e Unidades Básicas de Saúde e se verifica pessoas literalmente amontoadas em corredores de hospitais.
Ao que me parece, a atual Comissão da Verdade, instaurada para apurar os "crimes" da ditadura militar, é uma verdadeira manobra para justificar o novo modelo de ditadura que se pretende implantar no País.
Estudava Direito na antiga Fundação Universidade Estadual de Londrina, em pleno regime militar, e nunca fui torturado, perseguido ou tolhido em minha liberdade. Bastava estudar e trabalhar. É de se notar que os perseguidos políticos daquela época são, em sua maioria, os atuais políticos que nada fazem e querem se perpetuar no poder.
Por vezes, tínhamos aula na universidade até as 23h15, e eu utilizava transporte coletivo até o centro da cidade, e concluía meu trajeto até minha casa a pé, por volta da meia-noite, e nunca fui assaltado ou molestado. Na verdade, bandidos e malandros naquele período não eram tratados a pão de ló. Talvez, por isso, a bandidagem não prosperava.
A bem da verdade lutou-se tanto para se implantar uma dita democracia, onde o voto é obrigatório. Portanto, não é um direito, e sim obrigação, pois direito pode ser renunciado, e o comparecimento às urnas é compulsório, e nada democrático.
Em campanhas passadas candidatos eram punidos por comprarem votos, mediante a doação de óculos, dentaduras, etc. Atualmente, compra-se votos durante quatro anos, mensalmente, com bolsa-família, vale-cultura, vale-gás, vale-isso, vale-aquilo, vale-tudo, e nada acontece com os atuais políticos. Talvez, porque a independência dos Poderes já não seja mais observada, na medida em que os maiores cargos do Poder Judiciário são indicados pelo Poder Executivo, em atendimento aos seus próprios interesses.
Não pretendo obter a concordância de ninguém, só relatei o que vivi, e não o que me contaram, e discordar é um direito de qualquer cidadão, mas faço uma sugestão, leiam o livro "A revolução dos bichos", de George Orwell, que embora sendo uma obra de ficção amolda-se, perfeitamente, à nossa atual realidade, que infelizmente não é ficção. Após a leitura e análise, é possível indagar, não seriam os ditos anos de chumbo os verdadeiros anos dourados?
WEBER ATOS VANZO é advogado em Londrina
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