A anorexia é um problema associado ao universo feminino. Meninas e mulheres desejam ser cada vez mais magras e acabam morrendo. Mas um fenônemo vem chamando a atenção dos médicos, o crescimento da anorexia entre meninos. O Hospital de Clínicas da USP, único em universidades a ter um ambulatório exclusivo para atendimento de bulimia e transtornos alimentares (Ambulim), desde janeiro, quando foram abertas vagas para meninos, tem registrado um grande número de casos. O coordenador do Ambulim, Táki Cordás, diz que, provavelmente, havia uma demanda reprimida que agora poderá ser atendida.

Existem números que mostram o aumento de casos de meninos que apresentam anorexia?
Sim. O Ambulim tem 15 anos. Ao longo desse tempo nós tivemos, se tanto, cinco homens. No início deste ano começamos a notar um aumento. Hoje temos algo em torno de 18 a 20 rapazes em tratamento. Na enfermaria, dos dez leitos que temos, até há pouco tempo, cinco estavam ocupados por moços.

Tem alguma idéia dos motivos dessa mudança?
Havia uma demanda represada. Acredito que está havendo paulatinamente um aumento de casos entre populações até então livres, mulheres depois dos 40 anos, crianças e homens.

Existem diferenças para o tratamento de homens e mulheres?
O tratamento para os homens tem algumas particularidades. Mas é sempre multidisciplinar com orientação psiquiátrica, muitas vezes com uso de medicamentos, orientação nutricional, terapia, orientação familiar, psicoterapia individual.

Esse distúrbio é físico, psíquico, como se pode caracterizá-lo?
Essa diferenciação é muito artificial. Há estudos que mostram que não é uma doença eminentemente social. Tem componente genético, mas tem também aumento de incidência de comportamentos alimentares alterados em locais que foram recentemente industrializados. Há também estudos que falam de características de personalidade, que são herdadas. Então há um misto de fatores biológicos, de personalidade e culturais.

Como detectar se alguém está com o problema?
Você vai ver um adolescente preocupado em excesso com a questão do peso, da imagem corporal, o tempo todo falando de dieta. Um comportamento bastante rígido em relação à contagem de calorias, à atividade física, a troca dos amigos e familiares pela academia, brigas relacionadas com a restrição alimentar, ou interferência no tipo de comida da família. E claro os padrões mais evidentes de emagrecimento e a irritabilidade em relação à comida.

Há pessoas que recusam o tratamento. Qual o procedimento nesses casos?
Essa é uma das áreas mais espinhosas. Se for criança os pais são responsáveis e o tratamento tem que se feito de maneira compulsória. No adulto é uma grande briga, se tiver o risco de vida iminente, o médico está autorizado a internar, quando o paciente não percebe a gravidade da doença está autorizado inclusive a alimentar por sonda, forçar a alimentação mesmo contra a vontade. Quando o indivíduo não tem um risco de vida aparente, tem que tentar convencê-lo ao longo de um tratamento ambulatorial.

Quando se faz o internamento, qual o índice de recuperação?
O índice internacional, não temos dados nacionais, fala que em torno de 15% morrem em função da doença, por desnutrição, desidratação e suicídio; 30% tem uma melhora completa após cinco anos; 30% tem uma melhora parcial, com melhoras e pioras; e em torno de 30%, 40% não se recuperam nunca.

Existem diferentes tipos de anorexia?
Sim. Há o restritivo quando o paciente só restringe a alimentação, dieta e atividade física; e purgativo quando o paciente usa laxantes, diuréticos ou vômita. Os quadros purgativos são mais graves.

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