Ano novo, vida velha - Mirian Guaraciaba
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 07 de janeiro de 1999
Mirian Guaraciaba 
As imagens exibidas pelos telejornais no primeiro dia útil de 1999 deram a dimensão dos problemas que os brasileiros enfrentarão no ano que está começando. Fila para se conseguir um emprego, fila nas principais capitais do país para matricular os filhos na escola pública, fila para receber o salário-desemprego para quem está sem trabalho desde 1997.
Entra ano, sai ano e as cenas se repetem. Os balanços positivos de sucessivos governos não se refletem na rotina dos brasileiros. É claro que não se muda um país de um governo para outro. Mas, no caso brasileiro, uma sociedade mais justa e mais civilizada parece cada dia mais distante. Para milhões de brasileiros, janeiro começou com cara de desânimo, de notícia ruim. Em São Paulo, 1,6 milhão de pessoas entraram em 1999 sem trabalho. As demissões se multiplicam em todo o país e o desemprego continua sendo a ferida aberta do governo Fernando Henrique.
As empresas estão sem escapatória. Por isso demitem. E os trabalhadores estão sem mecanismos de autoproteção. Por isso perdem o emprego. Cada vez mais pressionados pela crise econômica que freia o desenvolvimento do país, a luta tem sido desigual para os trabalhadores.
Exatamente por isso, a demissão de quase três mil operários da Ford na semana do Natal - mais de 40% do seu pessoal - dificilmente será revista. Quem se atreverá a fazer paralisações num momento tão cruel das economias mundial e brasileira?
Em 1989, no auge do movimento sindical, e fim do governo José Sarney, aconteceram 2,2 mil greves. Em 1997, quando as dificuldades econômicas começaram a tomar conta do Brasil - e do mercado mundial - operários de todo o Brasil ainda fizeram quase 700 greves.
A última ousadia aconteceu no ABC paulista em novembro de 1997. Operários de quatro montadoras cruzaram os braços durante uma semana e conseguiram um reajuste de 11%. No ano passado, apenas uma paralisação de quatro horas, em abril, para que a Ford adiasse as férias coletivas. Deu certo.
Hoje, trabalhadores não pedem mais aumento de salário, nem benefícios extras, mas a garantia do emprego. E apesar da conjuntura econômica mundial, a elevação do nível de emprego no Brasil dependerá - e muito - da condução do país nas mãos de Fernando Henrique Cardoso.
O recém-empossado ministro do Desenvolvimento, Celso Lafer, adiantou que não pretende tomar medida de proteção à indústria nacional, e que deve respeitar os acordos internacionais. Isso quer dizer que continuaremos importando e o consumidor é que vai decidir se incentivamos ou não nossa produção.
Em Brasília, o cenário é o mesmo. Há recorde de desemprego. Mas, a exemplo de Fernando Henrique, existem promessas de criação de milhões de postos de trabalho até 2002. O governador Joaquim Roriz, na campanha, falou em 150 mil novos empregos nos próximos quatro anos. O presidente, em 7 milhões. Roriz prometeu gerar 30 mil empregos em canteiros de obras e lançar um programa de incentivo fiscais que possibilitará a criação de outros 120 mil postos. Se o presidente e o governador acertarem a mão, finalmente teremos a chance de comemorar ano novo e vida nova. Não em 1999, mas quem sabem no ano 2000,
2001, 2002...
- MIRIAN GUARACIABA é jornalista em Brasília


