Anjos injustiçados
Nélio Roberto dos Reis
E disse o Senhor: "Toma agora teu filho, Isaque, a quem amas, e oferece-o em holocausto sobre um dos montes que te hei de mostrar". O propósito de Deus foi provar a fé de Abraão, com o pedido de que entregasse completamente aquele seu único filho. Deus disse: "Agora sei que temes a Deus, porquanto não me negaste seu único filho (Gn 22; 12)". Que Deus pede para um pai matar seu filho? Se este Deus não sabia o tamanho da fé de Abraão, este não era o verdadeiro Deus e não teríamos que nos preocupar com ele.
Fantasia por fantasia, muito mais inteligente que o Velho Testamento, é a Odisséia, de Homero datada do século 8 a.C. Trata do retorno ao lar e de cada um dos obstáculos superados por Ulisses, onde são narradas as peripécias sofridas pelo herói ao tentar voltar para casa (nos braços de Penélope) depois da guerra de Tróia: o plano contra o gigante Polifemo, os desdobramentos da magia de Circe, o combate com Caribde, o redemoinho com Cila, o monstro de seis cabeças.
Voltando para o fato de matar crianças indefessas, vimos recentemente a foto de um menino sírio morto em uma praia da Turquia. Se estas imagens catastróficas na alma de qualquer cidadão de bem não mudarem de atitude aqueles que detêm o poder, qual será para sempre o destino dos menos favorecidos?
Aylan Shenu, de três anos, morreu no Mediterrâneo, deitado como se estivesse dormindo, mostrando um dos maiores descasos com a maior tragédia deste século. Essa guerra e fuga fazem a história de Abraão parecer um conto da carochinha. Cadê o anjo que deveria aparecer e dizer: "Não mata não, foi só um teste do Senhor"? O que será que estava fazendo o anjo nesse momento? Não se discute aqui, a existência, mas as prioridades. E os deuses gregos fantasiosos do Olimpo? Zeus, Poseidon e Hadis, que tanto interferiram nos tempos dos sonhos. Deveriam estar mais preocupados com Afrodite, Atenas, Artemis, Hera, Demeter, Hestia entre outras.
Aquela foto de um inocente de camisa vermelha, bermuda azul, tênis sem meia com o rosto nas areias de Bodrum, (berço de guerras desde século 3 antes de Cristo), afogado, que nunca conheceu a paz em toda a sua existência, vai marcar uma era, e deixa no coração de cada um de nós um enorme vazio, uma grande tristeza, um nó na garganta com grande incompreensão. Uma era de déspotas, hipócritas, criminosos que envergonhariam qualquer Sodoma e Gomorra. E eu que pensei, que a humanidade só poderia conhecer o inferno depois de morto.
Como fazem sentido os pensamentos de John Lennon, traduzidos em um de seus poemas: "Imagine não haver paraíso, nenhum inferno abaixo de nós. Acima, só céu. Imagine se não houvesse nenhum país, nenhum motivo pata matar ou morrer e nem religião também. Imagine todas as pessoas vivendo em paz. Imagine que não há posses, sem a necessidade de ganância ou fome. Uma irmandade de homens. Imagine todas as pessoas partilhando todo o mundo. Você pode dizer que sou um sonhador, mas não sou o único. Espero que um dia você junte-se a nós e o mundo será um só".
O Novo Testamento, mais lógico e sério que o Velho, em três evangelhos sinóticos, (Matheus 19. 13-15; Marcos 10.13-16 e Lucas 18,15-17), está escrito:
"Deixai as criancinhas virem a mim e não as impeças, pois delas é o reino de Deus". Seria isto uma metáfora? Não acredito. Espero que esse pequeno menino esteja agora no paraíso, recompensado de ter vivido neste inferno de homens e mulheres perversos e que esses bárbaros paguem aqui na Terra, assim como aconteceu com o ditador da Líbia.
Bashar aL-Assad, ditador sírio, médico (?), joga produtos químicos em seu próprio povo para manter o poder.
"Éramos todos humanos até que... a raça nos desligou. A religião nos separou. A política nos dividiu. E o dinheiro nos classificou" (Deva Nishok).
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