- Qual é sua opinião, doutora?
Esta pergunta, feita por um médico a uma enfermeira, diante de um doente, poderá levar este a pensar que a moça de branco, ali em pé, também é médica.
Mas não é. Formou-se enfermeira, exerce o cargo de enfermeira no hospital em que esta cena acontece. Diante de uma dúvida, diria a moça: ''Doutora, sim'', pois fizera mestrado em enfermagem e podia acrescentar as letras PhD ao seu nome.
Mesmo no caso de especialista em enfermagem comum, tem o profissional, em certos casos, o direito de receber o tratamento de ''doutor''.
Se há uma luta social que merece apoio, é a que se empenha em promover uma democratização cultural em seu país. A começar pelo combate ao analfabetismo (lembrança dolorosa: há 16 milhões de ''analfabetos absolutos'' no Brasil, ou seja: jogamos para fora de nossa convivência nacional o equivalente a quatro Uruguais e duas Suécias, etc), continuando pela instalação de bibliotecas em todos os bairros de cidades acima de 100 mil habitantes , organizando campanhas no estilo ''Paixão de ler''. Promovendo projetos abrangentes de ''bolsas de estudos'', adotando realmente a educação como atividade prioritária dos governos e possibilitando a ascensão de responsabilidade e títulos onde as circunstâncias o exijam.
O setor de enfermagem está nesse caso. Repetindo a expressão, 800 mil brasileiros estão nesse caso, pois essa é a quantidade de enfermeiros e enfermeiras que o país possui. Pertencem ao Conselho Federal de Enfermagem, que tem escritórios nas capitais de todos os Estados e em cidades com liderança em regiões de população relevante. Seu presidente, Gilberto Linhares, reuniu há poucos dias, no Rio de Janeiro, algumas centenas de personalidades do ramo, numa comemoração à oficialização dos títulos de ''doutor'' e ''doutora'' para enfermeiros e enfermeiras.
Numa ampliação cultural das atividades do Conselho será então lançada uma coleção de livros chamada ''Anjos de Branco'', prevista para constar de oito volumes de escritores brasileiros contemporâneos: Arnaldo Niskier, Carlos Nejar, José Louzeiro, Domício Proença Filho, Helena Parente Cunha, Marcos Santarrita, Demócrito Azevedo e o autor destas linhas. Cada um de nós escreverá um romance dando realce ao problema da saúde no Brasil e à presença dos ''Anjos de Branco'' na luta contra a doença.
Vale a pena lembrar que o romancista Adonias Filho, dos maiores que este país já teve, escreveu um romance, ''O homem de branco'', baseado na vida e na obra de Henri Dunant, fundador da Cruz Vermelha Internacional e extraordinária figura de homem que lutou contra a dor. Tinha Dunant, como símbolo do enfermeiro, pelo seu desprendimento e pelo seu trabalho silencioso em favor dos que estão mais próximos da morte, a dura consistência humana de um romancista como Adonias Filho podia erguer em livro para ficar. Obra de arte, é ''O homem de branco'' despido de qualquer atavio. Mostra um homem nu. ''O'' homem nu.
As páginas finais são de um Adonias seco, rijo, embora comovido. Fala de Dunant que, depois de criar e firmar a Cruz Vermelha, fora parar pobre e doente, num asilo, até que o descobriram para lhe dar o Prêmio Nobel da Paz em 1910. Chegara o cheque do prêmio e Dunant, que há anos não punha a mão em dinheiro, transferiu a enorme quantia para o asilo em que morria e para os pobres do lugar. Adonias narra a ato final de Jean Henri Dunant que entrega a seu médico um envelope, dizendo ''É o meu testamento''. Virou o rosto para o lado, e estava morto. Dentro do envelope havia duas frases. Uma: ''Sou um discípulo do Cristo como os do primeiro século''. A outra: ''Quero ser enterrado como um cão''.
Diante do sofrimento dos doentes, a que assistira, e do que vira ao tratar dos feridos e da vítimas de guerras insensatas que todas o são Henri Dunant não se julgava digno de cerimônia final melhor.
A coleção ''Anjos de Branco'', no movimento comandado por Gilberto Linhares, vem chamar a atenção para um aspecto básico da vida em sociedade: o de garantir, a qualquer cidadão, que, ao lhe faltar a saúde, não lhe faltem os meios de recuperá-la nem a presença e eficiência dos que dedicam sua vida a tratar de doenças.


- ANTONIO OLINTO é membro da Academia Brasileira de Letras

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