Anjo malvado - Albino de Brito Freire
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 25 de março de 1998
Albino de Brito Freire 
Não faz muito tempo, a Inglaterra, país dos mais desenvolvidos no concerto das nações, escandalizou o mundo ao submeter a julgamento duas crianças de dez anos, na Corte da cidade de Preston, pela prática de bárbaro crime. Os dois moleques haviam seequestrado e assassinado, com requintes de perversidade, o pequeno James, de apenas dois anos de idade, que deles recebera quarenta e cinco ferimentos diferentes na cabeça. Os psiquiatras da Corte, onde tudo é feito com pompa, critério e solenidade, atestaram que os pequenos algozes tinham plena conciência da ilicitude de seus atos. E foram ambos condenados à prisão perpétua (cela especial até completarem 21 anos; depois, a penitenciária).
Melanie Klein, uma das geniais continuadoras do pensamento de Freud, veio a criar método especial de análise de crianças muito pequenas, tendo legado à humanidade inestimável contribuição à técnica psicanalítica moderna, ligada à infância. Pesquisou e analisou ações agressivas e destruidoras de crianças em relação a outras crianças e adultos.
Assisti recentemente ao filme que empresta o título ao presente artigo e que relata importantes desvios comportamentais de um infante (representado na tela por Macaulay Culkin, aquele do Esqueceram de Mim) cuja astúcia e dissimulação, no desenrolar da trama, impressionam. Sua desfaçatez e crueldade são simplesmente revoltantes. Ele consegue matar o próprio irmãozinho, afogando-o na banheira, sem levantar suspeitas. E depois tenta matar a irmãzinha, que, alegremente, em sua ingenuidade, deixa-se arremessar vertiginosamente, em movimentos perigosos, num ringue de patinação. Mais tarde, empurra deliberadamente a própria mãe no abismo, quando ela começa a perceber suas atitudes paranóicas. O primo intervém para salvar a tia, que ficara dependurada sobre o penhasco, presa a providenciais arbustos. Na cena final, a mãe do capetinha terá de escolher qual dos dois deixará cair paredão abaixo, já que somente um ela conseguiria, deixando rolar para o abismo a criança malvada.
Essas despretensiosas considerações visam trazer à baila a reflexão sobre esse tema apaixonante envolvendo o mito da inocência. Temos, não sei por quê, a ilusão de que toda criança é feliz e sem maldade. Mas não é bem assim. Estudos recentes (não tão recentes...) demonstram que não há crianças sem dificuldades, medo e sentimentos de culpa, que lhe causam muito mais sofrimento do que parece. E, nesse cosmo de angústias, a conduta do infante percorre estranhos caminhos: sentimento de culpa - necessidade de expiação - cometimento do ato infracional - castigo correspondente, para redimir-se. Primeiro, Freud, e depois, Melanie Klein, dedicaram boa parte de suas vidas para combater o mito da candura infantil, que, por sua vez, teve em Rousseau seu principal defensor. Não tenham dúvidas: detectar e reconhecer as dificuldades da criança é o primeiro passo!
Às vezes me pergunto: por que será que as pessoas se recusam a encarar a realidade? Que necessidade têm elas de mascarar tal evidência? Quereriam, talvez, preservar a qualquer preço o culto a uma utópica inocência, apegando-se a um dos poucos baluartes remanescentes da condição humana? Ou talvez isso faça parte daquela hipocrisia atávica de nossos antepassados? Por que será que é tabu falar da malvadeza da criança? Pela consideração, talvez, de que toda árvore má gera maus frutos? A quem interessa a presevação desse mito? Ah! eu sei! Quem ousaria tirar-nos a poesia dos verdes anos, decantada em prosa e verso? Quem se atreveria a privar-me do encantamento daquela quadra mágica de meus oito anos?
A mamãe custa (nega-se!) a acreditar que seu pimpolho seja capaz de praticar atos de crueldade. No ano passado, em São Paulo, uma criança de dois anos jogou pela janela seu irmãozinho, um bebê de três meses. Agora, a mamãe iria dispensar-lhe, ao sobrevivente, mais atenção...No mencionado filme, a genitora do fedelho chega a dar um bofete na cara do sobrinho, quando tentava alertá-la para os desvios de conduta do primo. Como se atrevia a dizer isso de seu filho? Afinal, essas psicoses só acometem os filhos dos outros...


