Animais exóticos, donos excêntricos
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domingo, 26 de janeiro de 2003
Fábio Galão<br>Reportagem Local 
Imagine a cena: você chega em casa, depois de um dia cansativo de trabalho. Se senta no sofá. Tira os sapatos e apóia as pernas sobre a mesinha. Fecha os olhos. De repente, ao invés de sentir o nariz de um cachorro farejando carinhosamente seus pés ou o afago manhoso de um gato, você sente as escamas e um rabo pontudo roçando sua pele. Ou o corpo fino, lustroso e musculoso de uma cobra se enrolando nos seus calcanhares. Pesadelo?
Para alguns poucos londrinenses, este parece ser um final de tarde ideal - gente que não se contenta com o lugar-comum de totós e lulus e têm como animais de estimação iguanas, cobras ou aranhas. Há cinco meses, o estudante de biologia Frederico Tomasetti cria Ana (De Anaconda, justifica), uma jibóia de pouco mais de 90 centímetros.
Um amigo do Mato Grosso encontrou a cobra no mato e repassou para outro amigo, que me deu o animal sob exigência de que eu comprasse um aquário dele. É um bicho de estimação, mesmo, trato com todo o carinho. Coloco ela na piscina por uns dez minutos quando faz muito calor, só por uns dez minutos, porque ela não gosta muito. Deixo ela à vontade, mas sempre vigiada. Porque lá fora alguma ave pode levar a Ana embora, diz Frederico.
A jibóia não possui veneno e é uma cobra constritora, ou seja, que mata suas presas por sufocamento. Ana divide as atenções da casa com um pit bull e um fila, com quem, Frederico garante, tem um relacionamento pacífico. Mesmo inofensiva, a cobra provoca medo e a natural repulsa. Tem gente que acha a jibóia mole, molhada, mas ela é seca, limpa, com uma musculatura muito forte. Uns amigos meus chegam ressabiados, mas já acham bonito em seguida. Uma vez, num churrasco, alguns deles viram a cobra e todos voltaram para casa para buscar câmeras, ri Frederico.
O estudante já teve outros animais de estimação exóticos em casa: ferret, aranha caranguejeira, escorpião, até uma piranha, que era mantida num aquário e alimentada com tilápias. Vinícius Santos Cervantes, proprietário de um pet shop em Londrina, alimenta entusiasmo semelhante pelos animais e já chegou a manter 150 deles em sua chácara, em Cambé (a 13 km de Londrina). Alguns bem pouco ortodoxos: avestruz, ema, flamingo, lhama, camelo.
Cansado de acumular despesas (ele calcula que gastava R$ 700 por mês com os animais), Vinícius vendeu boa parte dos bichos e restaram 40 na propriedade. A maioria, cachorros e aves, mas o toque exótico permaneceu com a manutenção de duas iguanas - um macho, adquirido há sete anos, e uma fêmea, há dois anos. A fêmea é mais arisca, porque peguei adulta. Se você pega a iguana desde pequena, como eu fiz com o macho, ela se acostuma, fica mansa. Quanto mais você convive, mais dócil ela fica. Até coloco as duas pra nadar na piscina, diz Vinícius.
Karina Ferreira, caseira da chácara, concorda. As iguanas comem fruta na nossa mão. Meu filho de 18 anos adora, pega o macho e brinca com ele, deita no colo. Só não deixamos o bicho fora do cercado porque ele pode ir pra casa do vizinho, explica. E essa docilidade quase canina vem de um animal que provoca repulsa em muita gente ao primeiro olhar.
Por sua vez, o estudante de direito J.G. (que prefere não ser identificado) tem como mascote um bicho pelo qual é difícil nutrir qualquer simpatia: uma aranha caranguejeira, de cerca de três anos, que está com ele há um ano e meio. Achei a aranha no Iate (Clube). Tenho um grupo grande de amigos, que sai pra fazer rapel, trilha, e dentro dele três pessoas são estudantes de Biologia. Eles me dão dicas para cuidar dela, explica o jovem.
J.G. está acostumado a deixar a caranguejeira andar por seus braços, mãos e cabeça. A família aceita. Meu pai é engenheiro agrônomo, cresci em sítios. Só não posso deixar a aranha sair do vidro. Aí, os velhos ficam doidos, ri o estudante, que anuncia que sua mascote está grávida. Coloquei ela pra cruzar com o macho de um amigo. Devem nascer umas 200 aranhinhas, mas destas só umas 10 vingam, diz J.G. O estudante diz que deve doar os filhotes para universidades - mas quem sabe ele não doa algum para quem compartilhe desse mesmo amor exótico?


