Aníbal, o vizinho do fim da rua
Aníbal, o vizinho do fim da rua
Maria JosefaEu vivia numa capital, num bairro aprazível, onde só existiam casas. A minha casa ficava numa rua muito calma. Na esquina de baixo, morava um senhor baixo, gordo e de cabelos brancos. E a parte da rua onde ele morava era a mais movimentada. Via-se gente entrar e sair de lá pela manhã e no começo da noite. Antes de entrar num carro oficial, sempre ele me cumprimentava; a sua presença dava à minha rua um ar pomposo, e eu me orgulhava.
O vizinho da esquina de baixo morreu nesta semana.
Radicada na Itália, na segunda-feira eu tinha ido a Veneza visitar alguns pavilhões da Bienal. Diante da instalação eslovena Lava de Oceano, a notícia recebida pelo telefone: o Doutor Aníbal morreu. Lava num oceano. Mas como morreu? Uma pessoa como o Doutor Aníbal não morre.
Desde menina fui sua vizinha, em Curitiba. Primeiro na casa da Desembargador Costa Carvalho, esquina com Hermes Fontes, e depois no edifício vermelho da Visconde, eu estava habituada a ver a calçada em frente à sua casa repleta de automóveis, um vaivém de políticos e personagens ilustres que com ele, com o passar dos anos, escreviam a nossa história.
Enquanto eles ficavam lá dentro, conversando, os motoristas dos carros com chapa branca esperavam fora. Eu achava importante ter um vizinho assim célebre. Era criança, mas compreendia que aquela figura de insólito tipo físico, que o fez ganhar o apelido de Buda, era o artífice de muitos acontecimentos.
As brancas sobrancelhas abundantes eram a moldura de olhos pequeninos e espertos, que viam fundo nos olhos de seus interlocutores e baixavam a defesa de quem quer que fosse. Não custei muito a ficar mais alta do que ele, e meu respeito por ele só fez aumentar, pois quanto mais velha eu ficava, melhor conhecia o vizinho do fim da rua. O Doutor Aníbal era muitas vezes maior que a sua estatura.
Inevitavelmente, quem o conhecia se tornava seu admirador. Ainda que fosse seu adversário. O seu carisma era centrado na moderação. Sabia tirar a razão de uma pessoa sem argumentar diretamente contra essa razão apenas dava à parte contrária a oportunidade de pensar melhor a respeito, com calma e sabedoria árabe que poucos são capazes de aplicar na prática. O fã dos almoços no Grego e no Aziz sabia convencer sem argumentar. Sua maior arma de persuasão estava no fazer pensar.
Muitas vezes a Dona Niva preparava uma quibada para muitas pessoas. Essas mesmas que escreviam com o Doutor Aníbal a nossa história. Ficava com o cheirinho do tempero nas mãos e um dia o mostrou para mim. Na cabeça, tinha todos os nomes dos convidados e sabia como deixá-los à vontade.
Ir à sua casa era como estar na casa da gente. O dito que diz que atrás de um grande homem há uma grande mulher encontrou nesse caso a sua versão na vida real. Sem a Dona Niva, o Doutor Aníbal seria menos Doutor Aníbal. Um dia, vi na frente do apartamento um carro russo como o seu nome. Tinha sido um presente dele.
Meu pai me ensinou a votar no Doutor Aníbal. Mesmo treze anos após a morte do meu pai, continuei renovando meu voto de confiança no Doutor Aníbal. E agora o Doutor Aníbal não está mais aqui.
Custa a crer que a caneta do Escritor da História do Paraná tenha sido abandonada ao lado do livro que ele ainda escrevia...
- MARIA JOSEFA é escritora paranaense, radicada em Vicenza (Itália)





