Angústia das massas de desiguais
O que ou quem está por trás da rebelião dos jovens suburbanos de Paris não é nenhum movimento terrorista, destes que têm um nome e costumam assumir grandes atentados, qual troféus, nem um eventual líder emergente dos guetos, mas uma forma de desigualdade. Algo acima dos padrões conhecidos de miséria social que têm na linha de frente a fome e a falta de quase tudo porém outra marca de desigualdade, situada em patamar de reivindicação mais elevada, mas tangente para essa categoria de rebeldes. A divisão de classes, que segrega pessoas e privilégios (destacadamente o emprego) e causa revoltas, é um mal que se manifesta mesmo em nações de melhor padrão de vida e de bom nível educacional e cultural, incluindo-se a sofisticada Paris, capital do país que ostenta o lema da liberdade, da igualdade e da fraternidade. A agitação, que já dura duas semanas e está contaminando também a Bélgica e a Alemanha, não começou em nenhum bairro das elites parisienses mas nas periferias, espraiando-se rapidamente por toda a Cidade-Luz e pela França inteira. Esses jovens, descendentes de imigrantes ou de refugiados, não seguem ideologias, mas desejam melhoria das suas condições e do que eles qualificam de mais oportunidades. Não lhes falta salário-desemprego (e melhor que isso, eles querem o emprego), assistência de saúde, educação, mas isto não basta. É também uma igualdade (não muito clara) que eles buscam ao espelhar-se em outras castas sociais e intelectuais a dos seus co-irmãos franceses ditos legítimos, que não descendem de imigrantes e que não vivem na situação como a deles, de quase degredo. Por isso também buscam alguma porção do apregoado ideal francês da fraternidade. Quem se encontra nessas castas de sotaque alienígena, mesmo que patrícios franceses, não sobe tão fácil no ambiente das velhas civilizações européias. Diferente das nações das Américas, por exemplo, onde as ascensões sociais são mais fáceis e ainda possíveis para gente de qualquer parte do mundo ou seus descendentes autóctones. Isto, naturalmente, dependendo também da impulsão de cada indivíduo. O gênero de rebelião que ora ocorre na França não irá, por si só, alterar o status dessas camadas sociais, porque não é algo que esteja ao alcance do Estado. É uma espécie de vírus antigo porém mutante e que ressurge, aqui e acolá, convertendo-se assim em fato novo. Um estigma que emerge dos tempos bíblicos. O ímpeto da destruição aflora, e nessa mira está tudo o que vem pela frente. As primeiras ''vítimas'', no presente caso, foram 1.500 veículos incendiados. O episódio parisiense é uma delicada questão que, ademais, envolve fatores culturais. Algo que não aconteceria no Brasil, ao menos não em tal intensidade. Os componentes da violência tradicional não estão ausentes. Ronda esse cenário um inconformismo sem enfoque definido ou ele seria a igualdade não satisfeita, e possivelmente não atingível porque sem vínculo com atendimentos de ordem social mas que tem a ver com a convivência entre gentes diferentes. Portanto, não propriamente materiais, mas existenciais.





