Angu-de-caroço
A medida em que o tempo avança, os partidos e seus candidatáveis só pensam nas eleições do ano que vem. Na ânsia de chegar ao poder, principalmente as oposições conspiram de todas as maneiras possíveis para gerar a insatisfação ou alimentar as crises existentes. Assim, aumenta a confusão. Estamos virando um monumental angu-de-caroço.
No caso da pior crise, a energética, que agita a imprensa e alimenta a insatisfação popular, há um simbolismo perturbador: a volta do Brasil a melancólicas trevas ancestrais. Enquanto isso, o dólar oscila como cavalo chucro que não se deixa domar. Periga a economia descontrolar-se outra vez e o fantasma da inflação, flagelo por demais conhecido sobretudo dos assalariados, ronda o Brasil. O barco do Estado navega em mares conturbados.
Paralelamente aos males concretos do desgoverno, prossegue o clima de denúncias, fazendo supor que se fôssemos um país do Oriente, onde se corta uma das mãos dos ladrões, seríamos uma nação de manetas. De escândalo em escândalo a mídia nutre a opinião pública, satisfazendo o velho e conhecido instinto de linchamento real ou moral das massas. Desse modo, a cada queda de um homem público, as tricoteiras exultam com a mesma alegria da que na revolução francesa sentia o povo ao ver as caírem as cabeças decepadas pela guilhotina.
Em consonância com esse quadro adverso, variadas reações de grupos de interesse, frutos da insatisfação social ou utilizadas como preparação da largada ao poder de futuros candidatos, começam a conturbar com intensidade o ambiente social. E se as inconformidades reais ou artificiais são o ponto de partida das várias manifestações contrárias ao governo, fica claro para quem enxerga um pouco além do óbvio, que certas manobras eleitoreiras são mais beneficiadas do que os próprios participantes de tais manifestações.
Um das características observáveis nos movimentos antigovernamentais é que eles não são localizados, mas sempre se processam de forma articulada em várias partes do País como consequência dos avanços dos meios de comunicação e transporte do mundo moderno.
Decorre daí, que um dos modelos mais apreciados para fomentar e organizar manifestações de protesto, baseia-se atualmente nas táticas de rebelião feita pelos líderes da bandidagem que se aglomera nos presídios, movidos por telefones celulares e outras facilidades. Aliás, os motins de presos têm tido mais êxito do que ação sindical através das greves. A CUT, mesmo com seu avantajado poder político e sindical, nunca conseguiu uma greve nacional com a eficiência dos PCCs da vida.
Basta recordar que o modelo dos presídios foi assimilado, em parte, no recente movimento levado a cabo por aqueles que deveriam manter a segurança pública, ou seja, os policiais militares. Estes se utilizaram da velha tática dos marginais e dos sem-terra, que consiste em colocar na linha de frente mulheres e crianças que funcionam como um escudo de proteção. Se sem dúvida estas manifestações têm por base insatisfações fabricadas ou não, por outro acenam com algo muito sério: o clima de desorganização social que já se presencia, provavelmente se acentuará a medida que as eleições se aproximarem.
Outra característica dos protestos se prende ao fato de que em alguns, claramente incitados por direções ideológicas e partidárias, as motivações são extremamente superficiais. Funcionam, ao que parece, com a intenção de pôr mais lenha na fogueira do quanto pior melhor. E esse parece ser o caso de algumas manifestações estudantis, que ilustram a reação de rebeldes sem causa. Em obediência a certas lideranças, eles partem em busca de bandeiras que possam incrementar suas vidas.
Nesse sentido, foi emblemática a recente manifestação da UBES em Brasília. Note-se que a jovem representante estudantil que se apresentou sem roupa, conseguindo seus 15 minutos de glória, como o rei da estória demonstrou a nudez do movimento dos seus coleguinhas. Com o traseiro e outras partes do corpo pintadas em verde e amarelo, onde aparecia o indefectível Fora FHC, a moça era a própria imagem da alienação juvenil. Querendo protestar e debochar, prestou-se ao deboche através do espetáculo deprimente que protagonizou e, por seu intermédio, a UBES desceu vários graus na escala humana. Foi tudo sem ética nem estética, pois a gordinha não encarnou propriamente um padrão de beleza aceitável. E é de se duvidar que os participantes da pândega possuíssem uma consciência cívica mais nítida que os levasse a compreender com alguma profundidade o motivo do seu protesto, apesar de aludirem vagamente à corrupção. Como me disse um amigo, como era a diferente a juventude do nosso tempo, que era equivocada mas tinha pelo menos independência e vergonha na cara.
Anteontem, no Rio de Janeiro, de novo estudantes se manifestaram. Os motivos foram a corrupção e a meia-entrada de cinema. Tudo terminou em baderna e selvageria, com agressões mútuas e aos passantes. Para que a coisa não degenere mais, seria aconselhável que o PCdoB, entre outras forças ditas de esquerda, tirasse suas hostes da rua, ou que o governo tomasse providências mais firmes para que a sociedade não sofresse as consequências dos atos de vandalismo perpetrados por descontraídos manifestantes em seu carnaval cívico.
No mais, os sem-terra estão quietinhos para não prejudicar a imagem do candidatável Lula; Itamar Franco, o Napoleão das Alterosas, faz das suas fanfarronadas; e no Congresso, suas excelências, em vez de votar as reformas necessárias, continuam a se preocupar em aparecer diante de câmeras e microfones para exibir seus discursos vazios. Angu-de-caroço enjoa. Será que não está na hora dos poderes constituídos começarem a pensar em governar?
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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