André Stumpf
Lentamente, os brasileiros vão tomando conhecimento do que é ser latino-americano, integrar o Terceiro Mundo e viver no Brasil. Recentemente, os jornais publicaram trechos de palestras de um desses assim chamados consultores internacionais alertando os paraguaios, vejam bem, os paraguaios, a respeito dos riscos de terem a sua economia atrelada à brasileira. Segundo esse senhor, cujo nome me escapa, a economia nacional é uma bagunça, o real vai sofrer nova desvalorização porque o ajuste fiscal não foi realizado e não o será.
Se o ajuste fiscal não vai ser completado não sei dizer, mas tenho a sensação de que o governo, por inépcia, inapetência ou falta de organização, ou tudo isso junto, tem dado sinais realmente preocupantes para brasileiros e estrangeiros. Os últimos acontecimentos demonstram uma trapalhada sem fim.
Todo mundo sabe que o presidente e alguns de seus principais assessores tiveram trechos de conversas gravados e transcritos nos jornais. Foram pegos em pleno exercício da atividade de modificar o resultado do leilão da Telebras.
Todos admitiram que realmente assim agiram em defesa do patrimônio público. Mas trabalharam mal, porque outro grupo ganhou. Aquele que estava na posição contrária à do governo. Mas, se o vencedor tivesse perdido, diante das divulgações dos trechos gravados, teria direito agora a uma enorme indenização. Seria um outro caso Marka/FonteCindam.
No caso Marka/FonteCindam, conforme tudo o que apurou a CPI do Sistema Financeiro, ocorreu mais ou menos a mesma coisa. Uma informação privilegiada (inside information) errada. Quem errou pagou. Com o dinheiro do contribuinte, é claro.
Agora aparece o caso das gravações telefônicas, os grampos. Há, segundo fontes bem informadas, um festival de gravações. Todo mundo grava todo mundo. É o reino da chantagem. Alguém descobre que determinada empresa possui caixa 2 de tantos milhões de reais, grava as conversas, vai até ao presidente e pede parte disso. Caso contrário divulga as fitas.
As gravações teriam, vamos dizer, inspiração no pessoal da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), a sucessora do Serviço Nacional de Informações (SNI). Há participação da Polícia Federal em alguns episódios. Segundo os jornalistas especializados na matéria, há uma guerra entre as duas instituições. Uma grava a outra e agentes de uma e de outra gravam quem acham que devem.
Alguns deles, não são todos, nem é o procedimento padrão, saem por aí distribuindo fitas contendo informações privilegiadas para quem se dispuser a pagar por elas. Passou a ser um ótimo negócio.
Além disso, ministros trocam violentas acusações por intermédio dos jornais. José Serra acusa Valdeck Ornéllas de ser insensível e este retruca que seu colega está a favor da pilantropia, boa palavra, que significa filantropia dos pilantras, mas é acusação pesada. Os dois, a propósito, continuam no governo, e prestigiados, como se diz no futebol. O presidente, de público, disse que ambos são ‘‘ótimos’’ ministros.
A soma de todos esses episódios é muito ruim para o Brasil e para os brasileiros. Passa uma sensação de falta de comando, de desgoverno e da existência de diversos focos de poder que agem abertamente sem nenhum controle central. A propaganda oficial não conseguirá reverter essa imagem. Ela só vai mudar se o governo governar.
- ANDRÉ STUMPF é jornalista em Brasília

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