Analogias e outras patologias
Cláudia Prochet
Há pouco pudemos observar a manifestação ‘‘O grito dos excluídos’’, orquestrada pela Igreja Católica e presente em quase todas as comemorações oficiais pela Semana da Pátria. Pequenos grupos de desempregados, estudantes, sem-terra e sobretudo dos sem-dinheiro que, patrocinados por instituições de defesa da cidadania, sindicatos e ONGs, são manipulados a exigir do governo aquilo que destas deveriam receber, já que foram criadas para dar destinação efetiva e humanitária aos recursos dos cidadãos que as sustentam.
O fretamento de ônibus e o oferecimento de alimentação àqueles que, humildemente, dispõem-se a fazer número para aparecer na mídia, como na ‘‘Marcha dos 100 Mil’’, não atinge a finalidade de preencher espaços não ocupados pelo Estado e não alcança o objetivo de exigir dele ação em áreas de sua precípua atribuição, vide o sumário arquivamento do pedido da CPI da privatização das teles, entregue ao presidente da Câmara nessa festiva viagem.
O que se depreende desses malfadados episódios, é a banalização de instrumentos legítimos de reivindicação, e uma inversão na titularidade das representações; é verdade que há algum tempo o povo, guiado pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI), conseguiu o feito histórico do ‘‘impeachment’’ presidencial, manifestou a sua indignação e se fez ouvir, com método, organização e suporte; o povo mostrou seu valor e também impôs seus valores, manifestando-se com o mesmo respeito com que desejava ser tratado.
Agora somos bombardeados diariamente com imorais negociações no Congresso, troca de votos por cargos por destinações no orçamento, por modificações de leis para possibilitar a existência de ‘‘caixas de campanha’’ e encaramos tais negociatas como crianças no jardim da infância, admirando os coleguinhas que têm os brinquedos mais bonitos e idolatrando os que conseguem roubá-los, e só na hora em que perdemos para eles o nosso, é que corremos chorando para a professora.
Não é à-toa essa alusão ao jardim da infância, quando se comenta sobre valores. É fato que cidadania se aprende e se conquista a cada dia desde o nascimento, que dignidade se internaliza pelo exemplo e que a formação dada pela família e pela escola são as bases sólidas que devem alicerçar quaisquer construções ideológicas e culturais. Porém, esse crescimento fica profundamente distorcido quando tudo o que se vê são escândalos, corrupção e impunidade em todos os níveis, sejam eles o governo – no Executivo, no Legislativo e no Judiciário, a iniciativa privada, as ONGs, as igrejas e se entrelaçando entre eles.
É necessário que a indignação volte a permear nosso dia-a-dia, para que possamos atuar na moralização de onde nosso braço alcança e ir dilatando esse círculo gradativamente, para aí sim, tendo feito a nossa parte, possamos cobrar a parte dos outros.
Tal proposição traz à memória uma parábola antiga e muito interessante sobre um homem em uma enchente, que cheio de fé, rezava fervorosamente para que Deus o salvasse, quando seu vizinho passou de bicicleta e ofereceu-lhe carona, ao que ele, zangado com a interrupção, respondeu que não precisava, porque Deus o salvaria. Continuava rezando quando passou um homem a cavalo, que ele, com água pela cintura, ignorou. Rezava ainda com a água no pescoço quando passou um bote, que ele desprezou clamando a Deus que o salvasse. Quando chegou ao céu após afogar-se, profundamente revoltado acusou o Senhor de tê-lo abandonado, ao que Ele respondeu: ‘‘Por três vezes te estendi a mão e em todas a recusaste, não considerando meus emissários dignos de ti’’.
- CLáUDIA PROCHET é advogada em Londrina

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