Analfabetos tentam superar limites
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domingo, 12 de janeiro de 2003
Ana Setti<br> Reportagem Local 
Em um país no qual ainda se contam os analfabetos aos milhões (cerca de 19 milhões de pessoas, de acordo com o último Censo), não é difícil encontrar aqui e ali quem sofra por causa dessa limitação. Entre as histórias dos 23.839 habitantes de Londrina que não sabem ler, nem escrever, a de Maria José Dias Tavares, 63 anos, simboliza todas as outras, pois as razões serão com certeza muito parecidas. A principal delas é a opção entre o estudo e o trabalho, que surge como necessidade, imposta pelas circunstâncias adversas, na vida de muitas crianças brasileiras.
Foi assim com Maria José, que até hoje questiona a mãe: ''Por que você colocou todos meus irmãos na escola e eu, na roça?''. A resposta, muito conhecida, é que Maria José era a mais velha de 8 irmãos e a ela cabia ajudar a mãe, em casa, e o pai, na lavoura. Viviam em Itinga, Minas Gerais, quando seu pai ficou fascinado com a possibilidade de ganhar muito dinheiro no Paraná. Vieram para o Patrimônio São Luiz, onde a rotina de carpir e colher café se intensificou, mas a ilusão de ''ficar rico'' se diluiu, pouco a pouco.
Aos 14 anos, Maria José se casou. Os pais dela achavam que era muito cedo, ela faria falta nas lides da família. Mas o futuro marido não se deu por vencido: ''Ele me roubou'', conta. A rotina de trabalho duro não mudou muito em sua vida, enquanto a possibilidade de estudar ia ficando cada dia mais distante. Vieram os filhos sete, dos quais ''Deus tirou um''. ''Eu acertei de novo a conta, adotando um sobrinho'', conta. Em 1975, o marido a abandonou, ela ficou com os filhos para criar a menor ainda com três meses de idade e sem saber o que fazer.
A ajuda veio com a possibilidade, até então nem imaginada, de trabalhar como doméstica na casa de uma família, com a qual ficou por 11 anos. ''Consegui me erguer'', relata. Mudou-se para a cidade e se preocupou em fazer com que todos os filhos estudassem. Se não progrediu na vida, ela diz, ''foi por falta de chance''. Se eles não progrediram, ''foi por falta de vontade''. Para o filho mais novo, que teimava em não se empenhar nos estudos, ela perguntou uma vez: ''Você não acha chato que eu vá lá na escola e não possa nem assinar seu boletim?'' O filho reconheceu o quanto isso era não só chato, como humilhante, e tratou de estudar mais.
Humilhações, constrangimentos são parte da vida de quem não teve chance de aprender a ler e a escrever. ''A gente é como cego. Vai descobrindo um outro jeito de entender as coisas'', afirma Maria José. Ela consegue fazer tudo, mas, para se ajudar, procura marcar a cor, o número, definir referências muito próprias. Contudo, na hora de abrir um crediário, acertar alguma coisa no banco, envergonha-se por ter de registrar sua concordância com uma impressão digital. ''Conheço as letras, mas não consigo juntá-las em palavras'', diz.
As limitações de estudo não a impediram de crescer como pessoa, de criar os filhos, de se tornar útil para a comunidade onde vive. ''Poderia ter tido um emprego melhor, conseguido ganhar mais, mas faltou muita coisa'', conclui, tristonha. Maria José, no entanto, não é de parar no tempo, nem de chorar sobre o leite derramado. Ainda sonha. ''Queria ter um negócio pequeno, tipo R$ 1,99'', revela. E se o governo oferecer oportunidade para que os adultos se alfabetizem, ela é bem capaz de voltar a estudar e tentará convencer seu segundo marido, que trabalha como pedreiro e mal sabe assinar o nome, a ir também. ''Vamos os dois juntos. Por que não?'', anima-se.


