Santinhos, campanhas, debates, discursos inflamados. Com a proximidade das eleições, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgou o resultado de uma pesquisa interna que coloca o Brasil em posição vergonhosa: num eleitorado de 127,4 milhões de brasileiros, 51,5% dos eleitores não concluíram o ensino fundamental ou sabem apenas ler e escrever precariamente.

A pesquisa ainda mostra 8,2 milhões de analfabetos puros. Existiria democracia sem escolaridade? Nas palavras da educadora Kátia Chagas, de Brasília, se existir, ela é ''capenga'' e nada efetiva. Em entrevista à FOLHA, a educadora repercutiu os números e defendeu uma mobilização de todos os segmentos da sociedade, a fim de reverter as vexatórias estatísticas.

O TSE divulgou recentemente que o Brasil tem 8,2 milhões de eleitores analfabetos puros. Ser analfabeto é estar excluído?
Sem dúvidas. O analfabetismo é sinônimo de exclusão. O analfabeto funcional não pode fazer as escolhas. Para a gente mudar uma realidade como a atual, com eleitores que simplesmente obedecem a algumas regras, vivem no cabresto, incapazes de escolher, precisamos mexer com a escola. Precisamos resgatar, além dos valores da escola, os adultos e idosos que evadiram e são hoje os analfabetos funcionais, que conseguem identificar as letras, mas não compreendem o que muitos textos dizem. Precisamos mexer com a estrutura de exclusão.

É possível ter uma democracia sem escolaridade?
Não. Ela é capenga, não existe. Acredito que o sinônimo de cidadania seja a capacidade de fazer escolhas. Nossa população não pode escolher, ela não aprendeu a pensar, a compreender o mundo onde está, a se entender. O conhecimento que uma boa escola dá, no ensino fundamental, é essencial para os alunos. A repetência escolar tem que ser combatida por qualquer gestor público, como uma prioridade de governo. Uma cidade educadora foca nas escolas, mas também nas demais áreas.

Quando falamos em educação, quais acredita serem os agentes de transformação?
Temos que envolver, necessariamente, os prefeitos e secretários de educação. Esses dois agentes têm de estar convencidos a promover as mudanças, ao lado da equipe diretiva e dos professores. Além do investimento em uma educação de qualidade e na formação para a cidadania dentro da escola, precisamos ter uma gestão cidadã. Em todas as secretarias, dentro da própria prefeitura, isso pode extrapolar o espaço do Legislativo, do Executivo, tudo que tem a ver com o Poder Público. Se não há uma ação conjunta, acontece o que vemos, País afora: a gestão acaba e a situação não muda.

Essas ações seriam suficientes para reduzir os índices de corrupção?
Com certeza. A corrupção não está só nos órgãos públicos. Ela está entranhada na sociedade. Essa cultura da troca de favores, do jeitinho, regida muitas vezes pela falta de informação, colabora para alavancar os quadros de corrupção.

Pegando a Bahia como exemplo: há 2,1 milhões de baianos que não sabem ler ou escrever. Esses índices são uma dívida de décadas do Estado brasileiro com a educação?
Sim, mas não colocaria essa responsabilidade somente no Estado brasileiro, mas na sociedade como um todo, por todo o histórico que temos. Nossa mudança educacional é recente. Nos últimos 50 anos é que a gente vê um ensino que começa a ser pensado®MDBO¯ ®MDNM¯não somente para formar mão-de-obra para o mercado de trabalho. Esse ensino que é capaz de libertar as pessoas é muito recente. A partir da década de 1980 é que começamos a promover mudanças no sistema educacional, da velha educação reprodutivista para uma educação que propõe um pensamento mais livre. No começo do século passado, enquanto muitos países tinham índices baixíssimos de analfabetismo, o Brasil tinha quase a totalidade de sua população analfabeta. Isso dá uma defasagem imensurável em termos de formação de quadros para governar, para o mercado, para a sociedade.

Hoje são 8,2 milhões de brasileiros analfabetos...
Mas esses números podem ser revertidos. Hoje, no Brasil, temos proposições, educadores, teorias, práticas e metodologias disponíveis que possibilitam a mudança. Precisa haver vontade política.®MDBO¯®MDNM¯ Uma revolução no sistema educacional não é feita através de ações pontuais. Trata-se de uma decisão política. Portanto é preciso garantir recursos, investimento político e assegurar quadros. Com dinheiro e sem uma boa equipe, vamos vivenciar, mais uma vez, um conjunto de boas intenções que não são postas em prática.

O estabelecimento de um piso salarial para os professores é um passo para essas mudanças?
Diria que é essencial. É preciso resgatar o papel do professor na sociedade, que foi colocado praticamente na lata do lixo. Não adianta só ter boa infra-estrutura. Também temos que ter acesso à educação digital. Esse ajuste não acontece da noite para o dia, mas é preciso dar início às mudanças. E elas incluem um plano de carreira. Não adianta somente trabalhar com um piso. O professor que investe, que estuda, está há 15 anos na rede, tem que ter um diferencial em relação àquele com graduação ou magistério. Uma boa remuneração para quem fica é essencial. Por isso que as pessoas deixam o sistema e vão vender roupa. A valorização dos professores e da equipe diretiva é essencial, bem como a formação continuada.

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