ANALFABETISMO FUNCIONAL - Escolas também são responsáveis
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quinta-feira, 26 de março de 2009
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 
No Brasil, o índice de analfabetismo funcional é medido entre as pessoas com mais de 20 anos que não completaram quatro anos de estudo formal. O conceito, porém, varia de acordo com o país. No Canadá, por exemplo, é considerado analfabeto funcional quem possui menos de oito anos de escolaridade.
Segundo o Indicador Nacional de Analfabetismo Funcional (Inaf) de 2005, 74% da população brasileira não consegue compreender um texto simples. A pedagoga e professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) em Curitiba, Evelise Portilho, conversou com a FOLHA e explica qual o caminho para mudar esse panorama.
Na prática, quem é considerado analfabeto funcional?
É aquele que vai para a escola e aprende a mecânica da alfabetização mas não consegue ligar isso à vida. Ele escreve o nome mas não consegue interpretar um texto, ele apenas escreve o que ouve. Isto é um problema enorme no nosso ensino porque aquilo a que a escola vem, que é instrumentalizar o cidadão para que ele possa ter oportunidades na vida, para que ele possa ter uma colocação no mercado de trabalho, não está acontecendo. O sujeito hoje entra na escola muito mais para cumprir dados de pesquisa. Ele sai escrevendo mas não sabe usar ou dar significado àquela escrita.
Quando a escola não reprova o aluno, está incentivando esse analfabetismo?
Nós não podemos dar ênfase para a reprovação. Eu prefiro muito mais pensar o que é que não estamos fazendo em termos de oportunizar as aprendizagens. Cada um de nós tem um tempo diferente para aprender. Assim como cada um de nós aprende de formas diferentes, utilizamos estratégias e estilos de aprendizagem diferentes e nem sempre conseguimos cumprir o exigido daquela série. Porque muitas vezes, ou em uma grande parte das vezes, o problema não é do sujeito que não está conseguindo aprender, o problema está na própria estrutura da qual ele faz parte. Será que o nosso ensino continua dando muita ênfase ao conteúdo e não à aprendizagem desse aluno?
Quem tem esse problema pode ter algum outro distúrbio de aprendizagem, como a dislexia, por exemplo?
Analfabeto funcional não quer dizer que ele tenha distúrbio. Ter uma dificuldade de aprendizagem não é o mesmo que patologia ou distúrbio de aprendizagem. São coisas diferentes. Problemas de aprendizagem todos nós temos. Todo mundo que aprende tem alguma dificuldade. O que acontece no analfabetismo funcional é que a escola não fica atenta a essas questões, que são peculiares a cada um, ao estilo de cada um. Preocupada com o conteúdo, vai ''atropelando'' e esse sujeito acaba cumprindo mecanicamente com aquilo que lhe é exigido mas sem dar significado a nada disso, ou seja, ele não aprende. Aprendizagem é dar significado à informação que lhe é dada.
O analfabetismo funcional pode acontecer em qualquer área, não só no português?
Em qualquer área. O sujeito faz mecanicamente, como aprender a decorar a tabuada. Coloca os números mas não sabe o significado daquilo. E isso se faz em qualquer área do conhecimento.
Então a pessoa pode ser analfabeto funcional em uma matéria e em outra não?
Sim. Ele não consegue interpretar, ele não consegue refletir em cima e isso não necessariamente é uma questão dele.
Há alguma forma de corrigir isso?
Com certeza. O ensino prestar mais atenção no seu aluno. É sair do conteúdo pelo conteúdo e voltar os olhos para a aprendizagem do aluno. Porque não podemos mais ficar querendo colocar o aluno na escola só para aumentar os números nas estatísticas, mas efetivamente dar melhores condições de vida para esse aluno. É isso que chamamos de cidadão, do bom aprendiz, daquele que realmente sai da escola porque ela fez a diferença nele. Não é só ir lá porque tem a merenda ou porque a família vai ganhar o Bolsa Família.
Quem já saiu da escola, tem como corrigir esse analfabetismo também? De que forma?
Investindo na leitura, na escrita, em outras áreas da inteligência. Sabemos hoje que não somos só um tipo de inteligência, não existe só um tipo, existem várias. Nós temos vários caminhos para trabalhar, tanto na lógica matemática como na linguística, na musical, na dramatização. Nós aprendemos por diferentes canais, é diversificar isso porque hoje vemos que fora da escola a criança recebe muito estímulo. Por que quando chega na escola ela não consegue aproveitar toda essa possibilidade?


