É a sábia conclusão da promotora da Vara de Infância e Juventude de Londrina, Édina Maria Silva de Paula, que se manifesta: para combater a criminalidade será preciso não apenas aumento do investimento em segurança, mas amor e solidariedade. Refere-se ao furor da violência, com mortes, que desde o ano 2000 vem se mantendo na cidade. Só no ano passado foram 180 assassinatos, envolvendo em boa parte jovens, que matam e que morrem. Relato de um delinquente de 18 anos feito à promotora como ela narra em entrevista a este Jornal mostra que a falta de oportunidade de trabalho é uma forte razão para induzir à criminalidade. Revela que o rapaz, em tom de desabafo e pranto, falou-lhe do drama de ter o pai preso desde que ele (filho) tinha 11 anos; de ter a mãe presa duas vezes; de morar com a avó que o tratava mal; de ficar passando de tia em tia, cada hora morando com uma; e que não encontrava emprego, naturalmente passando dificuldades de alimentação e outras. Disse-lhe mais o rapaz: que tinha grande vontade de matar um desafeto e que iria fazer isso, supostamente em defesa do que, para ele, era questão de dignidade. Se ele acabou desistindo da idéia do assassinato, não conseguiu arranjar trabalho. A sociedade, sempre reclamando ''providências das autoridades'' o que é de direito e de punições severas para esses marginais, no mais dos casos não deseja tomar conhecimento do problema individual dessas pessoas e também não parece disposta a ajudar. Amor e solidariedade ingredientes que escasseiam seriam com certeza um meio de solução. A promotora não especifica, mas solidariedade pode ocorrer por via de uma cruzada da sociedade organizada visando dar emprego a esses jovens, em grande parte afundados em venda e consumo de drogas, em miséria e fome, deles e dos familiares. Se ocorrer um mutirão no sentido de cada empresa contratar um (ou mais, conforme seu tamanho), a criminalidade baixará de volume, e terá valido a pena. Porque se estará erguendo um jovem envolto na delinquência, ou propenso, e a cidade terá mais paz. Sairá muito barato, face aos benefícios. Se o problema é da sociedade, então a solução será também da sociedade. Como ressalta a promotora, a sociedade não é o outro, mas é cada um. Se os governantes e os legisladores desejam realmente solucionar o problema, devem criar mecanismos legais que beneficiem os que contratarem esses jovens. Há que afrouxar a teimosa rigidez da legislação trabalhista, porque o legalismo ortodoxo acaba por criar ilícitos, como os dos roubos, assaltos e assassinatos. Eliminar encargos sociais, por um número de anos, seria uma forma de incentivar contratações específicas desse contingente de marginalizados. Se há mesmo vontade de resolver, há que se tomar medidas heróicas. É no mínimo uma hipocrisia clamar por mais policiamento e mais presídios, e os cidadãos isolarem-se em condomínios fechados e fortalecidos, quando o custo desses empenhos resulta mais elevado que dar emprego a cada um desses excluídos. A fórmula é mais simples do que se imagina. Basta dar uma ocupação de trabalho e um ganho, que qualquer cidadão desempregado se apruma, readquire auto-estima e dignidade, e passa a ser útil para si e para o conjunto da sociedade. Amor e solidariedade, pelas palavras da promotora, certamente querem dizer isto.

mockup