Amigos e cobranças
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 16 de janeiro de 2003
Walmor Macarini 
Bom é não esperar nada dos amigos, mas aceitá-los da forma que são, ou então não os queremos como amigos e sim como utilitários. Veja-se que dos inimigos nada exigimos, pois deles não esperamos reciprocidades. O preço de ter amigos não é fazer-lhes cobranças. Tudo o que ocorrer deve ser espontâneo. Não podemos abandoná-los só porque eles deixam de atender às nossas expectativas.
A aproximação entre pessoas é sempre uma identificação de iguais em afinidades, então que a relação fique nas coisas comuns que os unem, sem nada mais exigir. É nesse círculo onde ocorrem gestos de camaradagem mútua, mas eles devem ser voluntários. Certo que é aí onde, também, ocorrem com mais frequência as infidelidades, mas importa não imaginar que tal não possa acontecer. E importa mais não esperar gratidão e reconhecimento, mas buscar conviver em harmonia com as imperfeições dos outros, porque elas também existem em nós, na condição de carnais.
A busca de uma sintonia mais afinada com a realidade interna dos seres que nem sempre se revela pela manifestação dos sentidos afastará egoísmos e excentricidades. Não é porque alguém diz algo sobre nós que passamos a ser aquilo, tanto no elogio quanto na crítica. O exercício de nada cobrar dos amigos nos irá poupando de decepções. Porque, se nos viciamos facilmente em coisas que podem nos causar dano, temos a idêntica faculdade de adquirir hábitos salutares. Basta começar a praticá-los.
A ausência da consideração dos outros para conosco não elimina ou diminui nossos valores pessoais. Elogios também não irão criar em nós virtudes inexistentes. Se desprezamos a busca de retribuição pelo que somos e pelas coisas que fazemos aos nossos amigos, aos familiares ou a quem quer que seja, crescemos em auto-respeito, e então essas exigências viciosas nos incomodarão menos, até o ponto de ficarem despercebidas.
As cobranças que fazemos e as que nos fazem, assim como os egos não satisfeitos e as expectativas frustradas acerca de nós próprios e dos outros, são as causas das mágoas e das depressões que atingem a maioria das pessoas e que redundam em infelicidade e em doença. O ego é tão somente nosso componente inferior, mas temos lhe dado muita atenção e agido quase só em função dele. Nosso Eu Superior ou o Reino dentro de nós é poderosíssimo, mas adormece por falta de uso, porque deixamos que o ego o domine. Quando o ego nos assalta, tentemos nos lembrar da existência desse Eu divino que é o nosso superior poder interno - e recorrer a ele. E aí milagres acontecem...
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina.


