Amigos, amigos. Votos à parte
Amigos, amigos.
Votos à parte
Cláudia Prochet
O momento político atual, de lançamento oficial de candidaturas e consequente largada na corrida eleitoral faz com que o eleitor seja repentinamente bombardeado com nomes e números daqueles que, candidatos, começam a investir seu tempo e recursos para convencer a todos de que são a melhor opção.
Aparecem nomes de todos os bairros, partidos, ideologias, níveis sociais e culturais, aparecem nomes de todos os credos, todas as profissões e idades, enfim, para todos os gostos; aparecem os conhecidos, os não tão conhecidos e os completamente desconhecidos. Aparecem as opções de continuidade ou renovação...
E, diante de tanta variedade e tantas promessas, o eleitor fica tonto e sem saber o que é verdade e o que é apenas retórica, sem saber em quem pode confiar. Afinal, com tantos exemplos de desonestidade vindo à tona no meio político ultimamente, acabamos com medo de nos tornarmos cúmplices de mais uma rodada de improbidade apenas por votar.
A tendência, então, é votarmos naquele candidato que é nosso amigo, ou no amigo do amigo, ou então no filho da amiga da vizinha, que está desempregado e é um bom rapaz, educado e que sempre cumprimenta a todos; porque assim podemos ajudá-lo a ter um bom emprego...
Porém, se ao invés do voto, a vizinha pedisse para empregar o conhecido em nossa casa ou empresa, pagando por isso um salário, nós o faríamos prontamente? Ou será que iríamos observar mais atentamente sua aptidão para o trabalho em tese e investigar detalhadamente seu comportamento e seus antecedentes?
As notícias que divulgam o mar de lama que cobre o Brasil inteiro ultimamente, nada mais são do que resultado da forma inconsequente com que elegemos nossos representantes até hoje; sem nos dar conta de que votar é passar um cheque assinado em branco para o eleito; é outorgar uma procuração com plenos poderes para alguém agir em nome de toda a sociedade, que paga impostos para remunerar esse alguém.
O medo de errar ou a vontade de ajudar não podem ser a motivação da escolha, e deve-se fazer um paralelo entre a eleição de nossos candidatos ao Executivo ou ao Legislativo com a contratação de serviços para nossas famílias. É importante que os escolhidos tenham vocação, tenham estrutura e capacidade para a função, pois serão nossa voz pelos próximos anos.
Ou será que o cidadão, em sã consciência, escolheria um engenheiro eletrônico para tratar seus dentes por serem amigos de longa data? Ou permitiria que seu melhor amigo, médico, construí-se-lhe uma casa? Ou ainda, que um amigo dileto de seu filho, familiarizado com lâminas por ser barbeiro lhe operasse a vesícula?
Resta claro que, mesmo estando os profissionais citados tomados de boas intenções e não pairasse dúvida acerca de sua competência original, o resultado de qualquer das intervenções citadas seria temerário, ficando ao encargo da sorte e do Todo Poderoso reverter o fracasso previsível...
Da mesma forma que na casa privada, deve-se cuidar das Casas do Povo, onde hospedaremos nossos representantes para o próximo mandato. Deve-se observar o mesmo rigor na seleção de um cirurgião, de um advogado, de um tesoureiro, de um professor ou de um vereador, pois todos cuidam da saúde, da segurança, do tesouro e da educação do povo.
Distribuir brindes e promessas é muito fácil e mostrar-se piedoso e generoso é até uma exigência do marketing eleitoral; porém, para que não se assista depois à inércia e acomodação nesse caso o menor dos desastres é indispensável o exame minucioso do currículo, da atuação, da competência e da real capacidade de arregaçar as mangas para trabalhar em prol da sociedade.
A ciência já provou que ninguém é perfeito, e que é impossível ser detentor de todos os talentos e qualidades, então que se aproveite o que cada amigo tem de melhor, e se o atributo amizade se destacar em detrimento da capacidade de indignação, da adoção de causas populares, da vocação para levantar bandeiras e defender ideais sociais, características necessárias ao exercício da representação democrática, a prudência recomenda que não se misturem amizade e votação.
Se a recomendação não for observada, corre-se o grande risco de descobrir que tendo determinados amigos, torna-se desnecessário ter inimigos.
- CLÁUDIA PROCHET é advogada em Londrina
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