Ameaça nuclear (Editorial)
EditorialAmeaça nuclear
Com o esboroamento do bloco soviético, a queda do Muro de Berlim e o fim da chamada Guerra Fria, o mundo passou a viver a esperança de tempos de paz, livre de ameaças e, principalmente, do terror de uma hecatombe nuclear que poderia arrasar a Terra. Era uma possibilidade bem real, trazendo também novas e melhores perspectivas para a solução de muitos dos problemas que afetam os seres humanos em todo o planeta. De fato, com o fim do equilíbrio do terror, havia também a convicção de que recursos que vinham sendo usados para o armamento mundial, para as pesquisas de artefatos cada vez mais poderosos, seriam destinados a atender outras necessidades mais prementes da humanidade. Ao invés de usar o dinheiro para guerra e destruição, os homens poderiam passar a aplicá-lo em projetos destinados a resolver os problemas dos homens, como a fome, a miséria, a doença, que afetam ainda ponderável parte do planeta.
O fato de o fim da guerra fria não ter ainda marcado uma era nova e diferente para o mundo pode ser considerado natural diante da natureza do homem, do modo mesmo como se forjou a civilização no planeta. É difícil vencer antigos vícios, o medo ainda continua a ser usado para estimular desentendimentos entre os povos. Todavia, a esperança de mudanças positivas continua presente, podendo tornar-se mais forte na medida em que persista o clima surgido com as importantes mudanças ocorridas na Europa Oriental, principalmente, e em praticamente todo o mundo. Este quadro, porém, acaba de sofrer um rude golpe com a retomada pela Índia de experiências nucleares.
A Índia pode ser considerada um tipo de sócio menor do fechado e perigoso clube atômico, que inclui as nações que dominam a tecnologia dos artefatos nucleares e que já os construíram. Seu arsenal não é de longe comparável ao dos Estados Unidos, ou o remanescente nas antigas Repúblicas Soviéticas. Entretanto, é por si tão potencialmente perigoso quanto qualquer outro. Afinal, para destruir o mundo, não seriam necessárias muitas bombas nucleares. Até mesmo a eclosão de um conflito nuclear localizado (e esta parece ser a idéia da Índia quando decide novamente colocar em evidência seu poderio bélico), representa risco para a vida humana, mesmo que isto não degenere em guerra total.
A verdade é que ao realizar novos testes e insistir em fazer outros, a Índia traz de novo o medo, ao tempo em que evidencia desrespeito completo para com todo o planeta. O fato adicional de o Paquistão, considerado o inimigo indiano, já ter anunciado que pretende também realizar testes com suas bombas atômicas mostra como uma atitude irresponsável tem o condão de provocar toda uma série de consequências, que tendem a se expandir qual rastilho de pólvora. E a humanidade, que pensava estar livre da ameaça atômica, volta a ficar apavorada ante atitudes condenáveis e reprováveis.
O mundo hoje não é igual ao de há alguns séculos ou décadas. Existem normas de convivência internacional que os homens conseguiram estabelecer e que ajudam a manter o equilíbrio. Atualmente, há também a percepção de uma responsabilidade global sobre tudo, de tal modo que nenhum país tem condições de agir com irresponsabilidade, pondo em risco a paz, a situação do meio ambiente. Enfim, há uma realidade de compromisso entre os povos e quem age sem levar em conta esta situação se coloca como verdadeiro marginal no conceito das nações do mundo.





