Uma ameaça invisível está colocando em risco pacientes, médicos, funcionários e visitantes de grandes hospitais de Londrina. Trata-se da bactéria multirresistente ''Klebsiella Pneumoniae Carbapenemase'' (KPC). A presença do micro-organismo provocou o fechamento do pronto-socorro (PS) e da unidade de terapia intensiva (UTI) do Hospital Universitário (HU) em 28 de julho. Na ocasião, foi detectado que 29 pacientes estavam colonizados. Quinze continuam internados - duas crianças.
Esta é a segunda vez em menos de um ano e meio que o HU é obrigado a restringir o atendimento por conta da presença da KPC. E o problema espalhou-se, uma vez que pacientes internados no Hospital Evangélico também foram diagnosticados com a superbactéria.
O infectologista Arilson Akira Morimoto explica que o uso indiscriminado de antibióticos aumenta a resistência dos micro-organismos aos medicamentos e o risco de contaminação, em especial em ambientes hospitalares. ''A contaminação recorrente pode ser explicada pelo fato de o HU atender casos de alta complexidade e por ser um hospital escola'', afirma. Em entrevista à FOLHA, ele aborda as medidas indicadas para diminuir a ocorrência de bactérias e o risco para quem frequenta hospitais.
Por que a contaminação por bactérias é tão recorrente no Hospital Universitário?
Primeiro, por ser um hospital terciário com casos de complexidade elevada. Segundo, por ser um hospital escola com uma grande frequência de pessoas, sejam visitantes, alunos ou profissionais. Além disso, toda vez que os alunos novos entram para fazer especialização existe um aumento discreto na incidência de infecções, pois eles não estão habitualmente preparados e o tempo de cada cirurgia é mais longo.
A recorrência de infecções tem vários motivos. Pode ser inerente ao paciente, pode advir do cirurgião, especialmente quando ele é inexperiente, e varia de acordo com a complexidade do hospital.
A incidência é menor em outros hospitais ou a repercussão é maior no HU por tratar-se de um dos maiores hospitais do Estado?
É preciso verificar a incidência de bactérias em cada hospital. Sem dados técnicos não podemos afirmar nada. O HU teve o azar dessa bactéria, que acreditam ter vindo de Goiás.
Quais medidas devem ser tomadas para diminuir a ocorrência de bactérias?
É importante dizer que não é possível eliminá-las. Dá para diminuir a incidência e deixar a bactéria menos resistente. As bactérias multirresistentes existem desde que surgiu o antibiótico. Quando o (antibiótico) Benzetacil apareceu, na década de 1940, as pessoas passaram a tomar o medicamento por qualquer coisa.
A grande repercussão dessa bactéria no HU está acontecendo porque a possibilidade de tratamento é muito ruim. Essa bactéria inutiliza um antibiótico extremamente importante. Sendo assim, é realmente necessário fechar o pronto-socorro para evitar o alastramento.
E por que as bactérias estão cada vez mais resistentes? O problema, então, é o uso indiscriminado de antibióticos?
Quanto mais se usa antibióticos, maior a probabilidade de desenvolver resistência bacteriana. Toda vez que a pessoa toma antibiótico o medicamento não atua só onde está o problema, mas também na flora intestinal. Isso contribui para a resistência ao uso dessa medicação. Tem uma regulamentação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que talvez entre em vigor este ano, que determina que o antibiótico só pode ser vendido sob prescrição médica. Já existe essa determinação, mas muitas vezes a receita não é retida. Dentro do hospital as bactérias são mais resistentes porque a utilização de antibióticos é maior.
Qual é a parcela de responsabilidade da falta de higiene na disseminação de micro-organismos multirresistentes nos hospitais?
É preciso adotar medidas simples de higiene, como lavar bem as mãos. No hospital, alguns visitantes passam nos leitos, cumprimentam os pacientes e depois não lavam as mãos. Não é somente o médico e o enfermeiro que devem ter esse hábito de higiene, mas os acompanhantes também. Além disso, existem as medidas habituais no hospital. E tratando-se de bactérias resistentes outras iniciativas são importantes, como o uso de avental para entrar nos quartos.
Qual a diferença entre um paciente infectado e um colonizado por uma bactéria?
A diferença básica é que quando há infecção a bactéria causa algum dano para a pessoa. E na colonização ela não traz nenhum problema ao organismo, (a bactéria) simplesmente fica lá. Todo mundo está colonizado por determinado tipo de bactéria. Quanto mais saudável a pessoa estiver, menor é a probabilidade de desenvolver uma infecção.
Quais doenças a Klebisiella pode provocar? Há risco para a vida dos pacientes?
A bactéria pode causar infecção urinária, de pele ou pneumonia. E coloca em risco a vida da pessoa, pois não conseguimos tratar as infecções que aparecem. Ela nos reporta à década de 1930, época em que praticamente não tínhamos antibióticos.
O índice máximo de infecção hospitalar preconizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) é de 5%. Por que esse número é considerado seguro?
É um índice aceitável. Mas ele pode ser maior ou menor, dependendo da situação. Se o índice de algum hospital estiver em 20% significa que alguma coisa está errada. Nesses casos, os controles de infecção não estão muito adequados ou as pessoas não estão lavando as mãos. Existem hospitais onde o índice é de 1% porque são de menor porte e não são realizados muitos procedimentos. Mas, dependendo do que é feito, o índice pode subir. No entanto, nenhum hospital está livre de infecções.

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