O mundo civilizado está envolvido numa guerra muito mais grave do que os conflitos atuais ou antigos que se travam à vista de todos. Está em curso, atualmente, um combate terrível envolvendo as tremendamente poderosas forças do tráfico internacional de drogas e a sociedade mundial. Segundo organizações internacionais especializadas na luta contra a droga, como a Interpol, o Grupo de Ação Financeira (GAFI) e os Programas das Nações Unidas para o Controle Internacional das Drogas (PNUCID), o montante anual do dinheiro do tráfico para lavagem se situa entre US$ 300 bilhões e US$ 500 bilhões, quantia verdadeiramente assustadora, inclusive por estar nas mãos de pessoas que não têm qualquer freio moral ou ético. Diante disso, e com o significativo título ‘‘As prosperidades do crime’’, um livro analisa o papel desempenhado pelo dinheiro sujo nas crises financeiras mundiais, em particular as que afetaram o México em l995 e a Ásia em 1997. A obra, ‘‘Les prospérités du crime’’ (título original em francês), de Guilhem Fabre, publicada na França pela editora l’Aube, em parceria com a Unesco, faz uma análise profunda da influência do dinheiro sujo sobre alguns dos mais sérios problemas econômicos enfrentados pelo mundo, em anos recentes. Ninguém ainda havia assumido o risco de analisar o papel desse dinheiro nas crises financeiras dos países emergentes, mas depois de estudar a história das drogas e os mecanismos de lavagem, o autor, Fabre (membro de um grupo internacional de investigação sobre drogas ligado a um programa da Unesco) dedica três capítulos ao Japão, México e Tailândia.
No Japão, a máfia Yakuza pediu maciços empréstimos aos bancos para fazer investimentos ‘‘limpos’’ no setor imobiliário. A onda de especulação ‘‘destruiu as fronteiras que separavam a economia formal da informal’’, segundo o livro. A partir de 1995, empréstimos deixaram de ser pagos, por causa da contínua baixa de preços no setor imobiliário. Em 1997, 10% das dívidas consideradas irrecuperáveis pelos bancos estavam ligadas à Yakuza e mais 30% tinham relação indireta com o crime organizado. No México, o fenômeno foi gerado pelos cartéis da droga (particularmente os que introduzem cocaína nos EUA). Na Tailândia, começou com os chefes mafiosos provinciais que controlam a prostituição, o tráfico de armas e de drogas, o contrabando de combustíveis e o jogo clandestino. O autor explica que essas atividades favorecem a especulação, em detrimento da produção, agravando o clima de insegurança, até provocar uma situação de crise.
Trata-se de uma situação que assusta porque esse tipo de poder parece estar crescendo e não encontra limites. Em anos recentes, houve denúncias sérias sobre a influência dos cartéis criminosos, até em eleições, casos principalmente de Bolívia e Colômbia, verdadeiros centros de produção das drogas. Investigações e denúncias produziram toda uma série de crimes e uma reação que, até agora, não produziu resultados. Ao contrário, o que se percebe é que o poderio dos elementos criminosos ligados ao tráfico se torna cada vez maior e mais perigoso. Movimentando tanto dinheiro, os cartéis, naturalmente, se tornam poderosos. Ademais, onde o dinheiro não faz efeito, usa-se a violência em nuances inconcebíveis, o que acaba transformando a sociedade civilizada em refém do crime.
Esse novo estudo - revelando a possível influência dos cartéis em crises econômicas mundiais que provocaram tragédias, aumentaram a miséria, produziram verdadeiros descalabros nos países mais pobres - é mais um alerta. A sociedade civilizada não pode ficar inerte diante disso. Precisa se mobilizar e agir com firmeza diante desse tenebroso desafio.

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