Ambição é doença?
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de novembro de 2004
Moacir Costa 
Existe muita polêmica e dificuldade em estabelecer os limites saudáveis da ambição, e por outro lado saber quando se inicia a busca obsessiva de objetivos, independente dos meios utilizados.
O ambicioso nem sempre estabelece uma parceria ou uma relação de amizade desinteressada. Como tem dificuldade em se abrir, as chances de ser um bom parceiro ou um bom amigo são mínimas. Ele sabe, como ninguém, agir de maneira envolvente e sedutora, mas na intimidade é mais calculista e dificilmente se envolve com as questões alheias. Como é uma pessoa muito disciplinada e persistente, quase sempre obtém sucesso profissional.
É claro que sua personalidade apresenta aspectos positivos, como a capacidade de organização e a habilidade para gerenciar tanto sua vida profissional quanto a pessoal. Por outro lado, quando consegue ter um controle dessa ambição, valorizando e respeitando as pessoas que estão ao seu redor, que por sinal ocorre raramente, se torna uma pessoa de sucesso e interessante, inclusive no plano afetivo.
Para essas pessoas excessivamente ambiciosas, conhecidas como gananciosas, a vida é um balcão de negócios. Por isso, estão sempre atentas às vantagens e tomam cuidado para manter controle constante sobre tudo o que ocorre ao seu redor. Não se deixam levar pelas emoções. Ao contrário, o cérebro do ambicioso funciona como uma máquina calculadora; está sempre fazendo contas e traçando planos para atingir suas metas. Os seus sonhos, desejos e projetos estão muito mais relacionados ao trabalho e à carreira do que à vida amorosa e familiar.
Quando essa ganância - que passa a ser um distúrbio neurótico - se torna um comportamento repetitivo e crônico eles passam a enfrentar períodos depressivos, e é inevitável o questionamento dessa busca desenfreada do sucesso, do poder e do dinheiro. Para essas pessoas o relacionamento amoroso é uma perda de tempo. Estão sempre se queixando das exigências da nova mulher, atribuindo a elas o insucesso da sua vida amorosa. Atribuem a elas um comportamento exigente e competitivo.
O resultado dessa falta de envolvimento emocional é o aparecimento súbito de eventuais distúrbios sexuais. O mais comum é o descontrole ejaculatório, em virtude da alta tensão e da falta de envolvimento afetivo com o parceiro. Na realidade, esses sintomas são sinais de alarme para que essas pessoas procurem alguma ajuda médica ou psicológica. O excesso de tensão e emoções contidas faz desse ambicioso um candidato precoce a doenças vasculares, em especial a hipertensão arterial.
O álcool, às vezes, é usado de forma constante para reduzir o grau de ansiedade e provocar relaxamento, mas por outro lado agrava as fases depressivas e compromete a potência sexual. O excesso de ambição inibe a capacidade de dar e receber amor, e dessa maneira o ambicioso se isola, se empobrece, comprometendo os seus relacionamentos afetivos e mais severamente a sua sexualidade. É fundamental reavaliar esses comportamentos socialmente valorizados.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta em São Paulo
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