Amargando decepções - Antonio Delfim Netto
PUBLICAÇÃO
domingo, 03 de janeiro de 1999
Antonio Delfim Netto 
Um leitor atento teve a gentileza de enviar-me cópia de um artigo excelente por sinal, de autoria do Sr. Henrique Duarte, publicado no jornal O Popular, de Goiás, comentando as dificuldades que a agricultura está enfrentando no Centro-Oeste do país. O articulista lembra a expansão da fronteira agrícola em seu Estado a partir dos anos 70, atraindo agricultores de todo o país para o plantio de soja, arroz, milho e trigo incorporando os produtores locais tradicionalmente voltados para a atividade pecuária. Em vinte anos, Goiás tornou-se o quinto maior produtor de grãos do Brasil. Na década de 80 tive a oportunidade de visitar algumas fazendas de produtores de soja e arroz que tocavam seus negócios com grande entusiasmo, estimulados pelo respaldo técnico oferecido pelo Embrapa e pelos constantes avanços em produtividade. Havia paz e trabalho no campo.
Na última década, no entanto - segundo relata o Sr. Henrique Duarte - os produtores vem amargando seguidas decepções e não houve nenhum momento de pré-plantio que não trouxesse desilusão. Este ano, por exemplo, o próprio presidente da República anunciou em julho no Palácio do Planalto, perante representantes do segmento ruralista, que haveria dinheiro disponibilizado de 10 bilhões de reais para custeio, mais 1 bilhão para investimento e 2,3 bilhões para aplicação via Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf). Apesar da solene promessa, os recursos não chegaram ao campo, passando a melhor época do plantio, numa eterna repetição de frustrações, reclama o articulista.
Infelizmente esta é uma situação que se reproduz na maioria dos estados nas regiões de produção de grãos. Os parlamentares que representam os setores ruralistas do Rio Grande do Sul, de São Paulo, Mato Grosso do Sul que se reunem na Comissão de Agricultura da Câmara trazem constantemente as mesmas informações: os recursos efetivamente liberados para os financiamentos do custeio são insuficientes e chegaram com atraso. O Banco do Brasil continua extremamente restritivo na concessão do crédito rural. Nas duas últimas safras a área de plantio foi reduzida, aumentando o desemprego no campo. A previsão oficial é que a área de plantio da safra 1998/1999 será superior à do ano passado, mas é preciso aguardar para ver se isso se confirma. Todos se recordam do anúncio prematuro de uma super safra no verão passado e na relidade houve queda na produção, o que levou o país a importar o volume recorde de 10 milhões de toneladas de alimentos. Algum aumento de produtividade tem se verificado, mas a estimativa pode ser frustrada diante do aumento das taxas de juros para os financiamentos de longo prazo, o que inviabilizou a expansão das vendas de implementos agrícolas.
O Ministério da Agricultura produziu este ano um excelente plano de safra, anunciado com a devida antecedência, renovando as esperanças dos agricultores. Não houve, porém, correspondência entre seus objetivos e o volume de recursos necessários para realizá-los. É difícil encontrar uma explicação razoável para esse fato. A agricultura deu uma enorme contribuição para o sucesso do programa de estabilização que já elegeu duas vezes o Presidente. Somente o setor agrícola pode oferecer respostas rápidas que ajudem a reativar a economia e reduzir o déficit de nossas contas externas. Pelo terceiro ano consecutivo, contudo, dificilmente atingiremos a autosuficiência na produção de alimentos, que já existiu no início da década. Em lugar de aumentar as exportações, vamos continuar gastando com importações os preciosos recursos que negamos aos agricultores brasileiros.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento.


