Amanda e Lucas, um ano depois
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sexta-feira, 28 de junho de 2002
Paulo Briguet 
Sei que posso parecer um estraga-prazeres, falando de um assunto triste agora, na euforia da Copa do Mundo, mas estou certo de que vale a pena.
Também gosto de futebol; quero ver o Brasil pentacampeão, mas não posso esquecer que amanhã, 30 de junho, completa-se um ano da morte dos irmãos Amanda e Lucas, na Avenida Inglaterra, em Londrina.
Se Amanda e Lucas passassem para o outro lado da rua, quando levavam um pacote de doces para casa, hoje estariam torcendo para o Brasil. Não é sentimentalismo: é um fato.
Amanda teria 11 anos. Lucas, 8. Onde estão eles? Talvez, do outro lado do céu, como disse Dom Albano, arcebispo de Londrina. E, certamente, nalgum lugar da memória.
Há algum tempo descobri que não me dou bem com sistemas universais nem ilusões coletivas. Minha preocupação sempre recai sobre o indivíduo esta voragem de alma, carne e consciência a que chamamos ser humano.
E é no indivíduo que ouso pensar agora. Penso em Ana Paula, mãe de Amanda e Lucas, que luta para reconstruir a vida, apesar da grande dor.
Ana Paula está indignada com a lentidão do inquérito que apura a morte de seus filhos naquele semáforo. O que move essa mulher corajosa com quem me solidarizo não é o desejo de vingança. É apenas a procura por justiça.
Não sei dirigir. Na condição de pedestre, assisto a uma guerra diária, e não declarada, entre o homem e a máquina. Guerra cujas batalhas são pequenas atitudes do cotidiano: desrespeito à faixa de pedestres, velocidade excessiva, exibicionismos motorizados.
Vou dar um exemplo que parece banal, mas não é: quando um motorista oferece passagem a um pedestre, quase sempre é alvo de buzinadas impacientes do carro que vem logo atrás. Conclusão: o exercício de poder da máquina sobre o homem tornou-se lei. E é a lei da guerra.
Sou um mero cronista; só penso nos indíviduos; não tenho fórmula para acabar com a guerra. Mas sei que ela existe e tenho o direito de ser pacifista. Tenho o direito de lamentar a perda de vidas inocentes como as de Amanda e Lucas. Tenho o direito e, no fundo, acho que tenho o dever.
Não vou negar que estou contente com a Seleção Brasileira. Mas arrisco fazer um apelo a você que me lê agora. Se o Brasil vencer a Alemanha neste domingo e espero que vença! vamos deixar a máquina em casa e vibrar como gente de carne e osso.
Sempre que passo pela Avenida Inglaterra, penso que ela deveria se chamar Avenida Amanda e Lucas. Que, neste domingo, a tarde seja bonita naquela avenida, e em todas as ruas de Londrina e do Brasil. Porém, antes de sair de casa, reserve um pensamento e uma gota de tristeza, de atenção para duas crianças que não conheceram este mar de alegria. Para duas crianças que hoje vivem no outro lado da tarde de domingo.
PAULO BRIGUET é colunista do site www.scalassara.com.br


