Amadorismo profissional
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 06 de março de 2003
Luiz Renato Roble 
O presidente Bush quer guerra. O presidente Lula quer matar a fome do povo. A gasolina não pára de subir. Os impostos continuam altos e o salário, baixo e para completar o quadro da dor, este ano o Carnaval foi em março. Chega ou quer mais? Se quiséssemos poderíamos aumentar a lista dos prováveis e possíveis motivos para explicar por que as coisas neste país não acontecem.
Graças à globalização, podemos pôr a culpa em tudo. Desde o conflito do Golfo Pérsico até em qualquer coisa que acontecer em qualquer lugar do mundo, de preferência, bem longe de nós. Mas será que a razão pela qual as coisas no Brasil não acontecem, não está relacionada com o mundinho que nos rodeia ou pior, com nós mesmos?
Acostumamo-nos a escutar cantores que não têm ouvido musical. É comum vermos empresários que não têm visão e vendedoras que não sabem vender nada, pois foram contratadas não pela capacidade ou conteúdo, mas pelo visual e não nos assustamos.
Sabemos de pessoas que abrem uma empresa, fecham os olhos e viram as costas deixando tudo por conta de funcionários. Enquanto elas ignoram a famosa expressão que faz referência ao olho do dono do porco e engordam a triste e robusta lista das empresas que fecham, nós ignoramos sua morte anunciada e não fazemos nada para ajudar.
Será que criticar ou reclamar das pessoas e das empresas não é maldade? Não, não é. Maldade é o que pessoal anda fazendo com empresas que poderiam crescer e aumentar o profissionalismo, o empreendedorismo e o desenvolvimento de nosso comércio e a incompetência não deixa. Preste atenção e veja o nosso comércio assim, como uma Atlântida tropical, submergir num mar de amadorismo.
O frentista do posto de gasolina, na ânsia de atender rapidamente, não espera o tempo suficiente para ouvir o que exatamente se deseja e já sai andando em direção à bomba, deixando a pessoa falando sozinha. Em casa, quem deseja ardentemente ouvir o que se está dizendo, mesmo que o assunto não esteja relacionado a ela, é a empregada doméstica. Contratada para passar e cozinhar, sequer sabe passar roupas, enquanto cozinhar nunca foi o seu forte.
A atendente da panificadora em vez de buscar aquilo que se está pedindo, primeiro anota tudo em um papelzinho, sem que ela saiba exatamente o que está escrevendo e sem que se tenha tempo, durante o atendimento, para olhar para os lados, ver quais são as opções que se tem para comprar e só então poder decidir o que se vai levar. Em contrapartida, quem não anota nada é o garçom, cujo pedido de bebidas, traz de cabeça, tudo errado e distribui aquilo que não foi pedido para pessoas que decididamente não pediram aquilo.
Dentro do táxi, descobre-se que o motorista nunca foi no endereço desejado, não sabe o caminho, não sabe qual é a melhor faixa para seguir, nem qual é a melhor estação de rádio para se ouvir.
Como diz minha mãe, na sabedoria mineira que herdou da mãe dela, para um macaco é fácil falar do rabo dos outros enquanto ele está sentado em cima do próprio rabo. Está na hora de pararmos de lamuriar e apenas procurar motivos e desculpas para a situação em que vivemos. Não será o Lula nem seus programas de governo que nos ajudará, mas nós mesmos.
Se cada um de nós procurar de alguma forma alertar os empresários sobre suas responsabilidades, cobrar serviços melhores, exigir respeito por nós e por nosso dinheiro e ao mesmo tempo, soubermos contratar, treinar, delegar e cobrar os resultados esperados de nossos próprios funcionários, estaremos contribuindo com nossa humilde parte para que o Brasil, como um todo, saia do amadorismo geral e torne-se um vencedor profissional.
LUIZ RENATO ROBLE é designer em Curitiba


