Jorge Amado foi um homem plenamente realizado: conheceu em vida a fama literária, num país que a maioria da população não tem acesso aos livros, nem o hábito de ler, nem é inteiramente alfabetizada para usufruir de forma democrática dos bens culturais. Mais do que escritor, Jorge Amado se afirmou como um artista que amou o povo brasileiro e o representou sem folclorizá-lo, sem idealizar situações, apenas colocou no papel aquilo que somos, como somos, sem maquiagens.
Ele viveu a vida ardentemente, conseguiu não apenas sobreviver como escritor num país que não valoriza muito os intelectuais, e que é muito difícil viver somente da literatura. Jorge Amado e o gaúcho Érico Veríssimo foram os primeiros a viverem daquilo que escreveram. Jorge também foi feliz ao lado de Zélia Gattai, numa relação a dois saudável, de complementaridade, como deve ser toda relação conjugal. Foram 56 anos de convivência a dois, numa época em que tantas famílias se desmoronam, onde cresce assustadoramente o número de divórcios.
Como escritor, ele criou personagens que se tornaram populares, ainda antes de irem para as telas do cinema e da televisão. A novela feita pela Rede Globo ‘‘Gabriela, Cravo e Canela’’ (1975) foi uma das melhores já realizadas pela emissora e muitos que a viram não se esqueceram de Sônia Braga, Armando Bógus e todo o rico elenco que deu vida ao famoso romance amadiano. ‘‘Dona Flor e Seus Dois Maridos’’ também foi o filme brasileiro de maior bilheteria em toda a nossa história. ‘‘Tieta’’, com Betty Faria no papel de protagonista, também foi outro grande sucesso televisivo.
Jorge Amado foi o escritor brasileiro que mais se projetou no exterior. Seu nome se tornou uma verdadeira grife nacional, equivalente a Pelé e Ayrton Sena. Falar em Jorge Amado não era apenas se remeter à Bahia, mas à alma do povo brasileiro, que ele soube tão bem captar em seus livros. A literatura brasileira passou a ser vista, lá fora, com mais interesse, a partir dos romances de Jorge Amado.
Cada autor tem o seu estilo, o seu jeito de contar histórias, a sua forma de se expressar. Não podemos ficar comparando esse com aquele. No Brasil, tivemos grandes escritores no século XX (Rachel de Queiroz, Guimarães Rosa, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, entre outros). Mas Jorge Amado foi, sem dúvida, o mais popular, o mais presente, o que mais influiu em nossa cultura.
Muitos intelectuais chegaram a torcer o nariz para ele, acusando-o de ser ‘‘povo’’ demais. E, no entanto, Jorge Amado comprovou que era possível fazer boa literatura e ser entendido por todas as pessoas e não apenas por uma elite, que se sente privilegiada.
A fama, a riqueza, as viagens que fez pelo mundo, a felicidade no amor, não afastaram Jorge Amado da simplicidade e do contato com o povo. Ele recebia todas as pessoas, apoiava os jovens talentos, estimulava especialmente os menos favorecidos pela sorte.
Ele foi de uma generosidade ímpar entre nossos intelectuais. Deixou falar mais o coração do que a fria razão. Viveu a solidariedade. Certamente ele é hoje uma estrela na eternidade, a fulgir a convicção de que o Brasil tem muito a oferecer ao mundo: uma cultura em favor da vida.
- VALMOR BOLAN é doutor em Sociologia e dirigente de instituição de ensino em São Caetano do Sul

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