ALUNOS COM DEFICIÊNCIA - Inclusão depende de mudanças na escola
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
A inclusão de alunos com deficiência na escola regular não depende apenas da boa vontade dos educadores. Exige, principalmente, oferta de condições físicas e pedagógicas para que os estudantes sejam atendidos de acordo com suas necessidades.
Professora-adjunta do Departamento de Educação da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e especialista no tema, Célia Regina Vitaliano defende a inclusão a partir da gestão escolar democrática, participativa e que ofereça ao professor as condições para que ele desenvolva o melhor trabalho possível.
Para ela, a questão tem sido divulgada de forma errada pela mídia. Os meios de comunicação se limitam a veicular propagandas sobre a inserção do aluno com deficiência na escola, sem discutir que as instituições de ensino necessitam passar por transformações para receber o estudante que exige condições diferenciadas para aprender.
O que é necessário para que a inclusão escolar seja efetiva?
É necessário repensar a escola de forma geral, desde o aspecto físico até materiais didáticos, formação dos professores, currículo, dinâmica das atividades, a forma como o professor avalia e interage com os alunos. O estímulo do comportamento competitivo não combina com a proposta inclusiva. É necessário desenvolver atividades cooperativas, com possibilidade dos alunos trabalharem a solidariedade.
Como o professor deve se preparar para lidar com as diferenças?
Essa é a questão mais séria num processo de inclusão. Na universidade, que é o espaço de formação de professores, não temos ainda garantida, na graduação, a formação em relação à inclusão dos alunos com deficiência. Não há oportunidade de estágio, que seria essencial para os alunos terem uma experiência prática. Dessa forma, o professor que entra no mercado de trabalho fica perdido ao se deparar com o aluno com deficiência. A reação acaba sendo de muito estresse e não aceitação, até com certa razão, em virtude de não haver uma formação inicial e nem uma formação efetiva, em serviço, que garanta a preparação para lidar com o tema.
O que o professor pode fazer para compensar a falta de preparo?
Uma solução é buscar essa preparação por iniciativa própria, em cursos de especialização. Também é possível se informar em sites e na literatura científica, para entender as características do aluno, além de promover na escola um espaço de discussão.
Na escola, quais são os direitos básicos que devem estar garantidos ao aluno com deficiência?
Acessibilidade à sala de aula, às carteiras, aos banheiros, calçadas adaptadas e até mesmo o transporte do aluno. Os materiais necessários devem ser adaptados para os deficientes físicos, visuais e auditivos. O intérprete para surdos está previsto em no mínimo cinco leis. Outra condição é o professor-auxiliar, cuja preseça é garantida pela legislação quando o aluno não tem independência para realizar as atividades. Em relação a deficiências com menor comprometimento, como a visual, o estudante tem direito ao apoio complementar para organização das condições em sala de aula.
É necessário um atendimento mais individualizado?
Às vezes é interessante que se programe a atividade pensando que ela possa ser variada, de acordo com a capacidade de cada aluno. Uma das propostas, para uma sala inclusiva, é que professor, ao preparar a atividade, perceba que os alunos não têm o mesmo ritmo e não podem desempenhar a proposta de uma forma igual. A atividade pode ter temas comuns, mas o nível de realização da turma tem que ser diferente. Alguns podem fazer produção de texto sobre o tema trabalhado e o aluno com uma dificuldade mais acentuada de aprendizagem pode desenhar o conteúdo, identificar letras relacionadas ao processo de aprendizagem, escrever palavras, frases mais simples. O currículo tem que ser flexível, não pode ser igual para todos.
Muita gente questiona a inclusão, alegando que a dedicação do professor ao aluno com deficiência acaba prejudicando os outros. Qual sua opinião sobre isso?
Percebo que, quando o professor tem uma sistemática individualista, a proposta não funciona. A inclusão divide a responsabilidade pela aprendizagem com a turma. O educador deve organizar as atividades de forma mais coletiva, em pequenos grupos, para que a turma o ajude a ensinar os alunos com deficiência. Quando ensinamos alguém, aprendemos mais porque temos que organizar os pensamentos, explicar... Se o professor exigir que todos façam a mesma atividade, vai ficar o tempo todo ao lado do aluno com dificuldades. Agora, se houver condições adaptadas e a turma for envolvida, acho que pode trazer benefícios a todos.
Como lidar com o preconceito?
Uma estratégia muito útil é trazer representantes da comunidade para que o professor, a equipe da escola e os alunos conheçam as potencialidades de uma pessoa com deficiência que esteja inserida no mercado de trabalho. Outra alternativa efetiva é a sensibilização. É possível colocar vendas nos olhos das crianças, ligar a televisão e tirar o som e depois discutir como lidar com essas situações.(Leia mais sobre o assunto no caderno Cidades)


