Tão logo se consumou a prisão de Lula, no último sábado (7), aumentaram as expectativas em relação ao julgamento de outros nomes, de diferentes partidos políticos, implicados na Lava Jato. E não deu outra: já na segunda-feira (9) o juiz Marcus Vinícius Reis, da 12ª Vara da Justiça Federal de Brasília, aceitou a denúncia por organização criminosa contra o advogado José Yunes, ex- assessor da presidência, e o coronel aposentado da Polícia Militar de São Paulo João Baptista Lima Filho, ambos amigos do presidente Michel Temer, acusados de formar um grupo do MDB destinado a cometer crimes de corrupção contra empresas e órgãos públicos. Com o ato, o juiz aceitava uma denúncia apresentada primeiramente ao STF pelo ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot, em setembro de 2017.

Da mesma forma, o ministro Marco Aurélio Mello decidiu na terça-feira (10) incluir na pauta da Primeira Turma do STF, no próximo dia 17, a análise da denúncia de corrupção passiva contra o senador mineiro Aécio Neves (PSDB). O pedido para transformar Aécio em réu partiu da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, no último dia 27, tendo em vista a delação do empresário Joesley Batista que apresentou gravação em que Aécio lhe pede R$ 2 milhões a título de propina. Na época, o político afirmou que o pedido era pessoal e se destinava a pagar seu advogado.
A movimentação dos processos no âmbito político e da Suprema Corte mostra aquilo que se desenhava no início das investigações: após passar pelos julgamentos e condenações de empresários e operadores de propina, a Lava Jato chegaria aos políticos, etapa mais complicada, tendo em vista que quem pratica infrações também legisla, além de indicar os ministros para a instância final dos próprios julgamentos dentro daquilo que se configura como Foro Privilegiado, o maior sinal de que a classe política deve muitas explicações à sociedade que a legitima.

É possível afirmar que a condenação de Lula abre a porta para que figurões do alto escalão político passem também a ser julgados com o rigor que se espera do alto escalão jurídico. Caso contrário, o sentimento de justiça entre os brasileiros seria anulado em favor do privilégio daqueles que cometem os chamados crimes de "colarinho branco", expressão que infelizmente faz parte da história contemporânea da República.

Se alguns partidos e suas respectivas militâncias fazem de tudo para barrar os processos que levariam estrelas da política ao julgamento e à condenação, por outro lado, cidadãos que só têm a ganhar com a faxina torcem para que os privilégios cedam a um sentimento comum de justiça, independentemente do cargo ou da importância do réu.

Estima-se que existam aproximadamente 22 mil pessoas com Foro Privilegiado no Brasil, um número exagerado para os padrões mundiais, segundo especialistas jurídicos, e que salta aos olhos de pessoas comuns que ainda não foram tocadas por cortinas de fumaça ideológica que, em última instância, têm por objetivo consagrar a impunidade de "personalidades especiais".

Se há uma coisa a ser corrigida na Constituição de 1988 é o Foro Privilegiado que transforma em competência exclusiva do Supremo Tribunal Federal o julgamento de quem pode se prevalecer do próprio cargo para escapar da lei.

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