Alternativas
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de junho de 1997
Antônio Delfim Netto 
O desemprego está aumentando no campo e nas cidades e, o que é mais desagradável, os desempregados estão tendo cada vez mais dificuldade em encontrar uma nova ocupação. No início do Plano Real o desempregado que procurava colocação conseguia novo posto de trabalho em 15 semanas, em média, na Grande São Paulo. No primeiro trimestre de 97 a demora em conseguir emprego atingiu a média recorde de 15 semanas.
O governo procura esconder esses fatos divulgando estatísticas que mostram uma taxa de desemprego estável em torno de 6% da população economicamente ativa nas cinco principais regiões metropolitanas. Os levantamentos oficiais têm dois problemas: o primeiro é que ele se baseia na procura por emprego em prazo curto. Se o pobre sujeito desistiu ou submergiu na economia dita informal, ele simplesmente some da estatística de desemprego. O segundo problema é que não reflete a situação do desemprego no interior do país, onde tem assumido proporções dramáticas graças à queda da atividade agrícola, especialmente nas culturas de maior absorção de mão-de-obra.
Quando o Plano Real se iniciou, a economia brasileira estava se abrindo rapidamente para o exterior. Tarifas de importação tinham sido reduzidas, o que facilitava as importações. Com a sobrevalorização do Real, as importações foram mais favorecidas e as exportações desestimuladas. Como era de se esperar, surgiu um déficit na balança comercial. Para financiar o déficit, o governo subiu as taxas de juros internas, para atrair capitais externos. Esses movimentos produziram, dentre outros, os seguintes efeitos: a) o setor exportador perdeu rentabilidade e as indústrias que tinham uma boa parcela de sua produção voltada para a exportação tiveram que demitir pessoal; b) o setor agrícola foi submetido a uma competição desleal dos produtos importados. Os preços internos caíram, a renda agrícola diminuiu e os agricultores endividados não puderam saldar suas dívidas, reduzindo a área plantada e dispensando milhares de trabalhadores rurais; c) as altas taxas de juros inviabilizam investimentos nos setores produtivos, que poderiam ampliar a oferta de novos empregos.
A política cambial colocou a economia brasileira numa armadilha: toda a vez que a economia tenta crescer um pouquinho mais, surge a restrição externa e o governo pisa no freio. Aconteceu em 1995, quando a crise mexicana de 94 assustou o mercado financeiro internacional, e está acontecendo de novo agora, porque os credores externos estão se assustando com o volume e a rapidez do crescimento das nossas necessidades de financiamento.
Na medida em que tem que manter o crescimento da economia em torno dos atuais 2% a 3% do PIB, essa política só pode resultar em mais desemprego. O PIB brasileiro precisa crescer a uma taxa anual mínima de 5,5% a 6% para começar a absorver o atual estoque de desempregados e voltar a oferecer oportunidades de trabalho aos jovens que chegam anualmente ao mercado. O governo está numa situação difícil, porque estimulou muitas empresas privadas a tomarem empréstimos no exterior, induzindo-as a acreditar que não mexe no câmbio e deu garantias semelhantes aos financiadores externos. É por essa razão que os economistas do governo vivem repetindo que não há alternativas para a sua política.
De minha parte, tenho sugerido ao governo que procure se livrar da armadilha o mais rápido possível, adotando os seguintes movimentos: ampliar a banda cambial, permitindo que a taxa de câmbio procure o seu ponto de equilíbrio. Isso permitiria baixar drasticamente as taxas de juros internas até o nível das taxas de juros externas; simultaneamente, adotar uma tarifa única nas importações (em torno de 10%); finalmente, cortar fundo os gastos estatais e utilizar os recursos das privatizações para amortizar a dívida pública.
Esses movimentos iniciariam o desmonte da armadilha, dando um passo importante para a retomada do crescimento da economia, sem prejudicar o programa de estabilização.
Não devemos esperar até que o desemprego dos brasileiros alcance níveis compatíveis aos da França ou da Argentina. A crise política francesa e a violência dos protestos populares no interior da Argentina devem servir de alerta aos nossos governantes.


