Alta de juros é nociva para o mercado
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 24 de janeiro de 2003
Paulo Afonso Rodrigues 
Todo o mercado sabe que a alta de juros é o inverso do crescimento do setor produtivo. Os especuladores querem sempre juros mais altos para o custo financeiro poder exaurir mais e mais de quem depende do crédito.
O índice de 25,5% ao ano, a grosso modo, pode ser visto isoladamente como baixo. Mas, em uma inflação abaixo de dois dígitos a porcentagem é muito alta, além do que contamina a dívida interna, a cotação do dólar, o mercado de ações, o aumento da taxa de juros do cheque especial, a conta garantida, o desconto de duplicatas, o capital de giro, enfim, todos os empréstimos bancários. E mais uma vez quem ganha? Os especuladores que não geram riquezas.
O mercado, dependente de crédito em um sistema bancário com 1,2 trilhão de reais de empréstimos, sobrevive com a transferência insaciável do setor produtivo para o capitalista. Hoje 18% da população têm conta em banco, mas estes 18% são 75% dos meios circulantes do País.
Temos uma concentração de 30% dos empréstimos em quatro bancos que contabilizam lucros crescentes a cada dia. Empréstimos estão ligados à dependência do crédito e esta dependência obriga o tomador do recurso a comprar como venda casada os famosos papéis, títulos de capitalização, poupança, seguros, previdência. E, quem compra em 90% dos casos, é quem depende do crédito e nem sabe os benefícios do que está comprando.
Em outubro a taxa estava a 18% e hoje é 25,5% e os especialistas acham que a atitude do governo foi correta e propícia para a situação atual. É a transferência dia a dia do setor produtivo para o capitalista. Mais juros, menos investimentos e a redução do emprego. O controle da inflação desta forma tem um custo alto.
De positivo é que todos estão apostando na equipe do Banco Central. O governo está com crédito para tomar as atitudes, no entanto, os sindicatos e associações comerciais já estão reclamando. O ''novo'' governo terá que administrar e bem o problema que está surgindo.
O atual governo já sentiu na pele, como todos nós, o que são juros altos, o que custa o superávit primário, o que é um dólar alto e um juro violento. Por isto toda a atenção deve ser dispensada aos custos de juros, pois desta habilidade é que dependerá o sucesso do governo.
Quem diria que o novo governo subiria os juros. O investidor gostou e vem mais investimento externo por aí.
PAULO AFONSO RODRIGUES é contabilista e assessor financeiro da Afiplan (Assessoria Financeira e Planejamento) em Londrina


