Alma de índio dá novo vigor à Igreja Paulo Augusto A Igreja Católica, uma das primeiras instituições a utilizar com esmero e preocupação quase científica os rudimentos da propaganda, razão de sua manutenção permanente no imaginário da humanidade, trabalha agora com uma vigorosa pauta de assuntos, fenômenos e compromissos que promete mantê-la viva, atuante e viçosa cada vez mais na agenda dos cristãos. Não bastassem os efeitos da Renovação Carismática, a instituição vê-se agora como centro de discussões e polêmicas, tendo em vista novas beatificações, além de uma profunda revisão no seu comportamento secular no que respeita à fé, principal sustentáculo do edifício da Igreja. Para os católicos do Rio Grande do Norte, em especial, o momento atual se reveste de uma importância capital. Se o Estado não viu até o momento a canonização, sequer a beatificação, do ‘‘Pastor dos Pobres’’, o Padre João Maria, nem o sertanejo do Nordeste assistiu até hoje à canonização do Padim Padre Cícero do Juazeiro, ambos ‘‘canonizados’’ popularmente e que continuam ‘‘vivos’’ e consolando os deserdados e os aflitos, pelo menos verá, em breve, a realização de um dos projetos mais caros para a Igreja local. Trata-se da proclamação da beatificação dos Mártires de Cunhaú e Uruaçu, a ocorrer hoje, 5 de março, em cerimônia presidida pelo papa João Paulo II, na Praça São Pedro, no Vaticano. O assunto interessa a leigos e carismáticos, gerando uma polêmica em torno da legitimidade da sacralidade da intenção, quando se questiona quem deveriam ser os verdadeiros ‘‘santos’’, se os próprios europeus, os portugueses descobridores e invasores, ou os índios. No caso das beatificações, remontando aos primórdios, o sociólogo e historiador potiguar Itamar de Souza recorda que, no início, era o próprio povo quem elegia os seus santos – como no caso dos padres Cícero e João Maria – através do reconhecimento de suas virtudes, um procedimento que durou até meados do século IV a.C. O estudioso potiguar Luiz Gonzaga de Medeiros lembra: ‘‘Desde que assumiu seu longo e profícuo pontificado, o atual Papa romano João Paulo II, por diversas vezes pediu ‘‘perdão’’, em nome de sua denominação religiosa, pelas atrocidades e crimes cometidos contra diversos povos e culturas. Em seus reiterados mea culpa, é inconcebível que Sua Santidade se tenha esquecido dos diversos povos e culturas dos milhões (5 milhões a 6 milhões, somente no Brasil) de infelizes e primitivos habitantes deste Novo Continente’’. ‘‘O ano de 1645 ocorreu em pleno período de ocupação holandesa do Nordeste, período esse no qual esta parte do Brasil experimentou certa tolerância religiosa, coisa inadmissível para Roma e seus reinos vassalos, império português incluído. Havia guerras e aconteciam massacres aqui, certamente de ambos os lados, e não simplesmente por questões de fé. ‘‘Acontece que desinformados católicos romanos facilmente muito cedo se convenceram, ou foram induzidos a tal, por causa do sobrenome Rabbi, de que esse Jacob fosse, além de holandês, um daqueles ‘‘ímpios’’ judeus. Estava assim delineado o enredo ideal para a engenhosa propaganda dos padres romanos, aproveitando-se principalmente do anti-semitismo que eles mesmos patrocinaram. Assim, o odiento ‘‘judeu’’ foi pintado como um monstro quase demoníaco (só faltaram os chifres, o rabo e o tridente), que bufava e espumava de ódio contra Cristo e seus ‘‘santos, inocentes e devotos’’ seguidores. ‘‘Como a emboscada, intencional ou casualmente, ocorreu durante uma missa, também ficou fácil ‘‘santificar’’ os portugueses contados entre as baixas, entre os quais o padre André de Soveral. Além disso, esqueceu-se convenientemente do fato de que aquele comandante dos holandeses foi fria, covarde e monstruosamente assassinado em Natal pelos mesmos ‘‘cristãos’’, em cujas boas intenções acreditou, e cuja ‘‘santidade e devoção’’ certamente não era inferior à de seus confrades e ‘‘mártires’’ de Cunhaú e Uruassu. De um total de meia centena de mortos durante o ataque, João Paulo II só irá conduzir às portas do céu a cerca de trinta brancos, nenhum índio beatificado, pois nessa época índio não tinha alma ainda, parecia gente mas não podia ser.’’ ‘‘Em anos recentes, ativistas judeus resolveram examinar o processo de beatificação, em que seu povo era mais uma vez acusado de perseguir e ‘‘martirizar’’ os seguidores de Jesus e descobriram que Jacob Rabbi nem era judeu nem holandês, mas sim, protestante e alemão, a serviço dos holandeses. Tudo bem para a propaganda dos romanos, pois os protestantes naquela época teriam tanta satisfação em degolar um padre quanto estes costumavam queimar vivos na fogueira e ferver em óleo quente a judeus e protestantes. ‘‘Inexplicavelmente, desmascarada a tempo essa manifestação de anti-semitismo explícito, nossos patrícios católicos atuais, à frente nosso reverendíssimo monsenhor Francisco de Assis, preferiram os índios aos ‘‘apóstatas, hereges e cismáticos’’ protestantes, como alvo substituto das acusações antes imputadas a um ‘‘judeu’’. À margem da BR-101, próximo à cidade de Canguaretama, a cerca de 3 quilômetros do Engenho de Cunhaú, local do propagandeado ‘‘massacre’’ de santos em ‘‘defesa da f钒, vê-se agora um grotesco monumento, representando um índio ‘‘assassino’’, esquisitamente montado no padre André de Soveral para desferir-lhe uma ‘‘traiçoeira’’ flechada’’. - PAULO AUGUSTO é jornalista em São Paulo

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