Utilizar métodos considerados limpos e que não poluem o meio ambiente nas plantações. Esse é o objetivo do controle biológico de pragas, tecnologia criada pela Embrapa para não deixar resíduos nos alimentos nem causar problemas de saúde aos trabalhadores rurais, pois reduz o uso de agrotóxicos.

Para o pesquisador Alexandre José Cattelan, que assumiu nesta semana a chefia da Embrapa Soja em Londrina, o instituto ''relaxou'' na divulgação da técnica aos produtores, mas o manejo integrado será retomado para tentar reverter o círculo vicioso de aparecimento de novas pragas e doenças nas plantações.

Nesta entrevista, o doutor em microbiologia do solo pela Universidade da Geórgia (EUA) fala ainda sobre o desmatamento de florestas para plantação de soja, a polêmica dos transgênicos e o uso do girassol como fonte de biodiesel.

Por que o programa de controle biológico de pragas foi abandonado pelo Embrapa?
Não foi abandonado. Houve um certo relaxamento ao levar esta tecnologia ao produtor. Continuamos a fazer pesquisas, mas em termos de difusão, de assistência, houve um descuido. Mas todos os agentes envolvidos no processo se deram conta e estão querendo reverter isso.

Dá para calcular o prejuízo causado pelo descuido?
Difícil calcular, mas com certeza é um volume grande. É principalmente um problema ambiental, porque foi jogado muito agrotóxico no ambiente, o que poderia ter sido evitado. Isso causa um descontrole na natureza, principalmente nos inimigos naturais, e acabam aparecendo pragas e doenças secundárias que não eram ameaça, mas passam a ser porque não existe mais o inimigo natural. Aí você acaba aplicando mais produto e isso vira um círculo vicioso. Queremos quebrar este círculo e voltar para o manejo integrado.

ONGs ligadas à área de ecologia reclamam da invasão da soja nas florestas do Mato Grosso, causando prejuízos ambientais. Qual a posição da Embrapa a respeito disso?
É claro que somos contra o desmatamento ilegal, a devastação da floresta de Cerrado para plantar soja, até mesmo porque não precisa. O Brasil tem área suficiente para atender a demanda atual e futura, sem necessidade de entrar em áreas sensíveis. Por outro lado, existe um certo exagero nestas reclamações. Grande parte do desmatamento se dá em função da madeira, depois entra a pecuária e só então a soja. Estamos bastante sensíveis a este problema, mas não temos poder de polícia, de fiscalização. O que fazemos é trabalhar em sistemas produtivos sustentáveis, visando principalmente recuperar áreas já abertas e degradadas. A soja entra muito bem nesse sistema porque através da adubação você pode voltar com uma pastagem muito melhor anos depois, até integrar com o próprio reflorestamento dessas áreas.

É possível mensurar a área onde é plantada soja transgênica no Paraná hoje?
É bastante expressiva, mesmo com as restrições que existem. A gente entende que isso ocorre porque o produtor está vendo um benefício na tecnologia, facilita bastante o manejo da área, que é problema sério principalmente na região Sul.

E qual a posição da Embrapa?
Temos um compromisso de manter nosso programa de melhoramento de soja convencional, então vamos oferecer soja transgênica e vamos ter sempre a soja convencional. O produtor não precisa ter essa preocupação, pois sempre terá uma opção.

Vem muita soja transgênica contrabandeada para o Paraná. Como a Embrapa pode oferecer orientação para quem utiliza esta soja? É possível fazer um controle?
A gente orienta em nossas publicações, dias de campo, palestras. Existem vários problemas com semente contrabandeada, começando pelo problema legal, a questão de impostos, royalties. E tem o problema técnico, porque o produtor planta materiais que não são adaptados às condições brasileiras, com sensibilidade a determinadas doenças que aqui nem eram mais problema e voltam a ser. Sempre que possível, a gente tenta evitar que isso seja feito.

Há interesse da Embrapa trabalhar com girassol para produzir biodiesel. Será criada nova estrutura para isso? É viável?
Temos uma equipe que trabalha com girassol há vários anos, só precisamos fortalecer esta equipe em termos de pessoal e de recursos. É uma alternativa viável. O girassol tem, em média, o dobro do teor de óleo da soja. Então seria melhor para os biocombustíveis, desde que a gente consiga resolver alguns problemas tecnológicos de produção. A maioria das sementes é importada, grande parte da Argentina, não sendo os melhores materiais para as nossas condições. Este problema terá de ser resolvido para começar a viabilizar o sistema e compensar de fato.

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