É inacreditável. Em 1996, o Brasil importou 5 bilhões de dólares em comida. E para 1997 caminhamos na mesma direção. Entre janeiro e junho deste ano, as importações de alimentos já ultrapassaram 2 bilhões trezentos e sessenta e sete milhões de dólares. É um dado estarrecedor. Deveria envergonhar os responsáveis pela política agrícola brasileira. Imaginem, estamos importando picanha dos Estados Unidos! Em 1997, até junho, gastamos 107 milhões de dólares com importações de carne bovina, da picanha dos EUA até maminha da Austrália. Uma vergonha. Chega a ser revoltante, indecoroso.
O qualificado economista Emílio Garófalo, ex-diretor do Banco Central, hoje trabalhando na área de assessoria econômica, é o autor desse importante estudo que, à primeira vista, choca pela crueza dos dados indesmentíveis. E que deveria merecer prioridade absoluta na correção de rumos de parte do governo FHC. Até porque o pernicioso ‘‘déficit’’ da balança comercial, que tanta dor de cabeça vem causando aos executores da política econômica, tem sua matriz principal na importação desses produtos agrícolas e pecuários. Objetivamente, demonstra que a agricultura brasileira concentra sua força unicamente nas ‘‘comodities’’. Vale dizer, produtos com cotações nas bolsas de mercadorias e com exportações para mercados garantidos. A soja expressa bem essa tendência. E outros mais.
Para um país com 8,5 milhões de quilômetros quadrados, que não consegue abastecer o seu povo com produção de comida, é a comprovação de que muita coisa está errada. E a agricultura é a grande vítima. Uma realidade onde ela tem de ser um dos suportes do desenvolvimento. Produzindo, também, para o consumo interno.
O trabalho de Emílio Garófalo é ponto de partida para a correção de rumos indesejáveis. Alguns dados extraídos do seu importante estudo: 1) O Brasil já foi exportador de algodão. Entre janeiro e junho de 97 importou 350 milhões de dólares. Com o cacau passamos de exportador para importador. Só em 97 já gastamos 61 milhões de dólares com compras no exterior. 2) O litoral brasileiro tem 7.367 quilômetros mas, mesmo assim, compramos no exterior 273 milhões de dólares em peixes e crustáceos. Do vizinho Chile importamos merluza, gastando 61 milhões de dólares. No Mar do Norte, gastamos mais 113 milhões de dólares com bacalhau. Com importação de cebola gastamos 64 milhões de dólares. 3) Com importação de verduras, legumes e frutas, ‘‘queimamos’’ 514 milhões de dólares. O ‘‘pacote’’ hortigranjeiro foi comprado nos Estados Unidos e França. Com importação de pêras vindas da Argentina e Chile gastamos 53 milhões de dólares. A importação de alho custou 57 milhões de dólares, com feijão gastamos mais 33 milhões de dólares. Tudo isso referente a 1997.
O surrealismo da importação de alimentos atinge o seu ponto culminante quando se trata dos ‘‘bichos de estimação’’. Gatos e cachorros ‘‘classe a’’ foram responsáveis por 56 milhões de dólares de importação de ‘‘rações especiais’’ destinadas à sua alimentação. Somente no primeiro semestre de 1997.
No cenário descrito, responsável em 96 por 5 bilhões de dólares de importação de alimentos, pode-se deduzir que os dados referentes ao primeiro semestre de 97 projetam um dispêndio maior para todo o ano corrente. Por consequência, agravando brutalmente o ‘‘déficit’’ na balança comercial brasileira. Resta indagar: tudo isso, em nome de quê? Muitos responderão que a globalização determina esse caminho. Argumentam que é mais barato importar esses bens do que produzir internamente. Trata-se de uma deslavada e grosseira mentira. Infelizmente ela ainda prevalece no Brasil.

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