ALIENAÇÃO PARENTAL - Um trauma na relação entre pais e filhos
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 31 de março de 2009
Thiago Nassif<BR>Reportagem Local 
Batizada pelo pesquisador americano Richard Gardner em 1985, a Síndrome da Alienação Parental (SAP), é o processo em que um dos genitores programa o filho para que ele odeie o outro genitor sem qualquer justificativa. No Brasil, segundo dados do IBGE, 91% das guardas em disputa são vencidas pelas mães, nas Varas de Família. Resultado: há mais mães fazendo campanhas contrárias aos pais.
O ônus é dos piores. Em entrevista à FOLHA, a psicóloga Isabella Borghesi faz importante alerta: filhos manipulados muitas vezes sentem-se culpados pelo que não fizeram e apresentam problemas de relacionamento, desencadeando, inclusive, na incidência de episódios depressivos.
O processo de desmoralização e descrédito do ex-cônjuge traz o que de saldo à vida das crianças, que se dividem entre as atenções de pai e mãe?
Não chega a ser um saldo, pois não é nada bom. Está mais para ônus, pois a criança perde e se sente culpada por uma situação que está se desenrolando, por não saber muitas vezes o que acontece em função do ''não dito''. Essas crianças se fecham, optam pelo isolamento, em muitos casos não apresentam a depressão em si, mas a incidência de episódios depressivos, não conseguem se socializar na escola e têm dificuldade de aprendizado. O ônus é alto.
Diz-se que elas ficam mais propensas a distúrbios psicológicos como depressão, ansiedade e pânico...
O isolamento é muito forte e muitas vezes há o vazio existencial. As funções paterna e materna são importantes e complementares para a estruturação subjetiva dos filhos. Quando se dá a interrupção ou o rompimento nas relações com um dos entes, as crianças se tornam ansiosas, deixam de comer - fazendo greve de fome -, ficam agressivas e podem apresentar distúrbios do sono, entre outros fatores que se já se manifestavam por conta de brigas entre os pais em casa, se acentuam.
O autoritarismo e o controle geram que tipo de família?
Quando acontece isso já não há respeito, muitas coisas foram perdidas. A sugestão é tentar identificar quando tudo começou a se perder, por que houve a desestruturação e em que época isso se perdeu. Para as crianças não é bom e nem para os pais, não há o conceito de família e incorre-se no conceito de joguete: a criança acaba como um sintoma dos pais, se sentindo culpada por aquilo que não é, quando se dá a separação.
Segundo dados do IBGE, em 91% dos casos as Varas de Família agraciam as mães com a guarda dos filhos. Resultado: são elas quem mais ''programam'' as crianças e o poder é unilateral...
O fato e apelo de ser mulher - quem gerou, pôs no mundo, cuidou enquanto o pai trabalhava - historicamente serve de trunfo para as mães, que acabam conquistando a guarda dos filhos. Ao saírem de casa, os pais acabam se afastando de seus filhos. Independentemente do que ocorrer, o que conta, de fato, no momento da separação, é a estruturação da família. Se o cônjuge bebia, traiu ou teve um ato que foi contrário à sensatez e a essa estruturação, o processo se torna mais difícil. Quando a criança vem para atendimento, temos que envolver a família toda. Chamamos a mãe, o pai, e, se ainda assim estiver difícil, envolvemos tia, avó. O atendimento acaba sendo familiar. Se o processo se dá na primeira infância ainda, a atenção é redobrada, pois são os anos mais importantes para o desenvolvimento cognitivo.
Muitos pais e mães vítimas das campanhas contrárias desistem da convivência com os filhos. Desistir não é ser conivente com a SAP?
O importante seria se houvesse a guarda compartilhada, com pai e mãe se envolvendo na educação dos filhos. Temos de separar conivência de negligência. Quem se afasta, não por negligência, muitas vezes tenta contato, mas a visitação é dificultada e as tentativas frustradas afrouxam as relações. A dica é procurar tratamento. A SAP é uma doença silenciosa, envolve o ''não dito'', mas chega uma hora em que eclode, com frases como ''seu pai não paga a pensão, e, portanto, não te ama''. Aí a situação fica insustentável.


