Alianças para salvaguardar conveniências
As alianças políticas, espúrias ou não, nunca foram novidade nos núcleos do poder. Com todos os seus vícios, elas são também uma forma de manter as conveniências e o equilíbrio da governabilidade num universo de interesses - pessoais e partidários - que são colocados acima de tudo. As estratégias chegam às vezes a pontos extremos e, em muitos casos, têm de contemplar corruptos para acomodações que interessam às forças políticas. Melhor que o Brasil fosse uma nação de políticos plenamente honestos, que agissem embalados pelo ardor do dever patriótico, mas tal não ocorre.
A eleição do ex-presidente da República (apeado do poder) e agora senador Fernando Collor para a presidência da Comissão de Infraestrutura do Senado não é um fenômeno isolado. Houve ainda a recente volta de José Sarney ao cenário das decisões como presidente do Senado, de Michel Temer à presidência da Câmara Federal e de Renan Calheiros ao manuseio das cartas (como líder de seu partido), todos os três do PMDB aliado do Governo.
O petista Lula preferiu Collor à companheira Ideli Salvatti, porque o senador alagoano tem mais afinidade com a ministra Dilma Rousseff (PT), preferida do presidente para concorrer à sua sucessão em 2010. A Comissão da Infraestrutura tem tudo a ver com os projetos do PAC, cuja mãe é Dilma, conforme o título que Lula lhe conferiu. ''A escolha de Collor veio em boa hora'', diz o ministro das Relações Institucionais, José Múcio, do mesmo PTB do ex-presidente. Eleito pelo povo depois de cassado, Fernando Collor, naturalmente, pode ser tudo o que o regimento permite, embora tenha chegado ao comando da comissão pelas mãos de Renan, em comum acordo com Sarney. Tudo em família e em consonância com os movimentos do presidente da República - que reparte o poder com o PMDB e assim, com todos os erros e acertos, faz um governo politicamente forte. O PT, enciumado - porque o lulismo está prevalecendo sobre o petismo - condena tais ''articulações espúrias'', mas é isto que sempre tem feito, e, diga-se a bem da verdade, é algo da própria constituição orgânica dos parlamentos e de todas as relações de poder.
Jânio Quadros, que pensou em governar sem acordos com o Congresso, teve de renunciar, e saiu execrado pela multidão esperançosa que o elegera. Não se pode negar que, sob esse aspecto, Lula opera bem. Mas não se sabe até que ponto manterá a união do seu PT em torno da candidatura de Dilma, que - mesmo agora que ela descobriu a arte de sorrir - não desfruta da simpatia de todo o partido.





