O Brasil chega ao final do milênio confrontado com duas agendas, cuja consecução é fator condicionante para definir sua condição como País no próximo século: a agenda da transformação produtiva e a da equidade social. A primeira tem espaço garantido na mídia diária, nas revistas semanais, no rádio e na televisão. Tem sido o eixo estrutural das publicações especializadas em economia, empresas e negócios. Nada de errado nisso. Ninguém, em sã consciência, pode negar a importância de uma transformação produtiva capaz de levar o País a se inserir de forma competitiva na economia global. A diminuição do Custo Brasil é a meta-síntese do esforço voltado ao ajuste estrutural, que se efetiva por meio de um amplo e diversificado conjunto de reformas.
O problema é que o desafio da erradicação das desigualdades sociais intoleráveis, expresso na chamada agenda da equidade social, não é apresentado nesses termos pela mídia. Em razão disso, acaba não sendo entendido em toda a sua profundidade pela opinião pública. Enquanto a agenda da transformação produtiva é apresentada como desafio único, num conjunto articulado de objetivos, a da equidade social, que também deveria ser vista como um agrupamento de metas e objetivos coesos, não tem o mesmo tratamento. Os desafios relativos ao combate à exclusão social são apresentados de maneira fragmentada e dispersa. É a iniquidade da saúde de um lado, a perversidade da seca, de outro, a infância carente e abandonada... a precariedade do ensino... Em parte alguma se trabalha com a noção de agenda, ou seja, uma abordagem articulada e consequente dessas questões.
A mídia não pode ser responsabilizada isoladamente pelo enfoque fragmentado do tema. Na verdade, os próprios gestores das políticas públicas, as organizações não-governamentais, entidades e empresas que atuam no campo social também não estabeleceram plena sinergia entre suas ações. Os esforços governamentais e de todas as organizações que já entenderam a premência de exercitarem a cidadania são, em grande medida, isolados.
A superação desse quadro deve ser feita com base no binômio ‘‘intersetorialidade/participação’’. Intersetorialidade por parte das políticas públicas e participação da sociedade civil. É exatamente no campo da solidariedade social e da sua relação com as ações do governo que emerge a proposta de alianças estratégicas, defendida pelo Instituto Ayrton Senna, como forma de ampliação e aprofundamento das ações do Terceiro Setor (fundações, institutos, Ongs e organizações privadas que realizam ações de caráter público). Este é um caminho para se fazer mais e melhor no campo social.
É importante deixar claro que Aliança Social Estratégica não é sinônimo de parceria. Esta se define pela atuação conjunta de dois ou mais atores, em que a ação de um complementa a do outro, de forma concatenada, para se atingir um objetivo comum. Já a aliança se dá entre atores sociais que poderiam atuar isoladamente ou até de forma superposta no enfrentamento de um problema, como frequentemente ocorre, mas que - motivados pelo fato de compartilharem princípios ético-políticos e pela consciência da magnitude do desafio a ser vencido - decidem agir conjuntamente.
Portanto, a Aliança Social Estratégica permite a aglutinação de atores sociais do Terceiro Setor e destes com o governo e até mesmo organismos internacionais, no sentido de enfrentar, de modo mais orgânico, os grandes desafios da agenda da equidade social. A sinergia agregada às alianças potencializa a força de todos os envolvidos, tornando sua ação muito mais eficiente em relação aos esforços isolados.
Essa nova maneira de ver, entender e agir permite - como ocorre no campo da transformação produtiva - que se trabalhe, também no social, com a noção de agenda. Este processo é muito mais eficaz do que um conjunto fragmentado de ações que, por mais competentes que sejam, se enfraquecem pela dispersão e pela própria superposição de esforços e recursos humanos, tecnológicos, financeiros e materiais.
A Aliança Social Estratégica constitui-se, assim, em instrumento eficiente para que a Nação possa responder às imposições conjunturais que a metamorfose histórica lhe impõe. E isso é fundamental, pois a redemocratização brasileira, que devolveu à sociedade a prerrogativa da liberdade e do direito, também lhe impôs novas atribuições e deveres. Dentre essas responsabilidades está a elevação dos níveis de bem-estar social e dignidade do povo brasileiro, imperativo ético e exigência política dos novos tempos.
- VIVIANE SENNA, psicóloga, é presidente do Instituto Ayrton Senna

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