Aliança contra o atraso - Rubem Azevedo Lima
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 08 de fevereiro de 1999
Rubem Azevedo Lima 
A simples junção de algumas peças do jogo político-econômico internacional pode ajudar a entender a escolha de um homem da equipe do megaespeculador George Soros, o economista brasileiro Armínio Fraga - defensor do câmbio livre e do fluxo de capital sem restrições - para a presidência do Banco Central.
A China, a Rússia e a Índia - cerca de 2,5 bilhões de seres humanos, mais de 40% da população mundial - estão em entendimentos para formar o que chamam de triângulo estratégico, visando à instituição de uma nova ordem econômica justa e racional. O objetivo é a garantia dos direitos econômicos soberanos das nações em desenvolvimento, segundo o presidente chinês, Chiang Zemin.
Chineses, russos e indianos, além de detentores de armas nucleares, têm outro ponto em comum: há tempos, eles vêm adotando, isoladamente, medidas defensivas de suas respectivas economias. Agora, falam em somar esforços para enfrentar a crise mundial do neoliberalismo e elaborar projetos comuns de desenvolvimento.
A antiga URSS quebrou literalmente, após o malogro da experiência neoliberal adotada por exigência do FMI. O país recorrera ao Fundo em julho de 1998, pedindo-lhe US$ 22,6 bilhões emprestados. Mês e meio depois, recebeu o adiantamento de US$ 4,8 bilhões, mas logo declarou-se em moratória e suspendeu o pagamento de suas dívidas governamentais e privadas, caloteando os credores em US$ 200 bilhões.
Recentemente, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Robert Rubin, mostrou-se preocupado ante a hipótese de os países em dificuldades econômicas cederam à tentação do protecionismo, em seus territórios, contra o livre comércio internacional. Em Davos, o vice-presidente do FMI, o americano Stanley Fisher, opôs-se categoricamente a cinco propostas de controle temporário do capital especulativo.
Fischer teve bons motivos para isso. Os EUA são uma bomba de sucção da economia do mundo subdesenvolvido e em desenvolvimento, graças ao livre comércio assimétrico, como o que se processa entre países ricos e pobres. O presidente Fernando Henrique Cardoso reconheceu as desvantagens de tal comércio, mas não o limitou. E o então presidente do Banco Central, Francisco Lopes, quando pensou em adotar pequenos freios à especulação, foi sumariamente demitido.
O Tesouro dos EUA, o FMI e a Bolsa de Valores de Nova York gostaram da demissão e aplaudiram, também, a escolha de Armínio Fraga para substituí-lo. Todos ficaram satisfeitos. Afinal o Brasil mostrou, com isso, não querer seguir o exemplo de países como a Malásia, que estão conseguindo recuperar-se economicamente sem se dobrar ao FMI.
E a mídia, sobretudo eletrônica - talvez já em manobra midiática prevista pela Revolution in the Military Affairs (RMA) - não informa que o premier Primakov, da Rússia, ofereceu à China e à Índia, em Academgorodok, a cidade tecnológica de Novosibirsk, a melhor arma para derrotar pacificamente o neoliberalismo: a cooperação da ciência e da tecnologia contra a pobreza, o atraso e o subdesenvolvimento. Males que sempre criam subserviências humilhantes e levam à dependência internacional.


