Algumas modestas propostas
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de setembro de 2001
Eduardo Galeano 
O soldado Timoth McVeigh colocou a bomba, matou 168 pessoas em Oklahoma e agora está no inferno. O governador George W. Bush colocou a assinatura, matou 152 no Texas e agora é o rei do planeta. O presidente Bush costuma dizer: ''Faço à minha maneira ou de nenhuma maneira.'' E assim é. Ele está ocupando à sua maneira o trono do mundo e à sua maneira faz e desfaz, mas seu categórico estilo, que tanto êxito obteve antes da coroação, agora choca com certa incompreensão universal. Dá a impressão de que o mundo não o entende, e, às vezes, parece que o bom homem reina na solidão. Aqui vão algumas sugestões. Provêm de um entre seus 6 bilhões de súditos, de um país que não é membro do G-7 nem do G-8, mas sim do G-181.
Melhor do que Kyoto. 180 contra 1: os acordos de Kyoto foram votados por unanimidade, menos um. O mestre Ronald Reagan havia estudado Ciências Políticas nos faroestes. Agora, seu aluno se vira, sozinho, como nos filmes, contra todos. Bem sabe o justiceiro que este assunto não é mais do que uma conspiração. Pretende-se sabotar a iniciativa privada e a liberdade individual.
Está em jogo o direito dos EUA continuarem desenvolvendo seu modo de vida, que se baseia no amor aos membros mais queridos da família: os carros. Os ecoterroristas, agitadores a soldo do transporte público, andam dizendo que os carros lançam veneno no ar e arruinam a atmosfera. Assim, abusa-se impunemente da paciência dos cidadãos de quatro rodas, que não podem dar um pio. É escandaloso, mas é assim: os carros ainda não têm o direito de voto, embora sejam mais numerosos do que toda a população norte-americana adulta.
Os inimigos do progresso olham a realidade e anunciam catástrofes: céu poluído, clima enlouquecido, planeta superaquecido... Ninguém se salvará. Nem mesmo nós, os uruguaios: as geleiras dos pólos continuam derretendo, ficaremos sem água potável e sem praias. Mas o nosso é um país livre. Se ficarmos sem água para beber, teremos a liberdade de escolher entre a Coca-Cola, a Pepsi e outros refrigerantes. E, se ficarmos sem praias, que são as culpadas pela folga nacional, nossa maltratada economia poderá aumentar espetacularmente os índices de produtividade. Vão nos assustar com isso?
Até quando o mundo continuará suportando estas apocalípticas profecias? Não terá chegado a hora de proibir de uma vez por todas, em todos os idiomas e em todos os países, a circulação dos relatórios científicos que andam semeando o alarme na opinião pública?
Como vender guarda-chuvas? Outro tema espinhoso: o guarda-chuva antimísseis. Bush não está conseguindo que se leve a sério a ameaça do terrorismo. Não se compreende a urgente necessidade de se colocar no espaço um escudo que nos defenda da agressão iminente das bases terroristas nas estrelas. O mundo livre está atuando como se não existissem mais mísseis que não os de brinquedo, com os quais o McDonald's presenteia as crianças em seu ''Lanche Feliz''.
Tomo a liberdade de opinar e, perdão pela insolência: o invento é bom, e muito necessário, eu diria que imprescindível, mas me parece que o vendedor equivocou-se de clientes. Bush insiste em promover o guarda-chuva entre os países onde não chove.
Embora soe como pedante, parece-me oportuno recordar a primeira lei do mercado: entre a oferta e a demanda, a víbora deve morder o próprio rabo. Este sábio ensinamento foi legado à humanidade por Marco Licínio Crasso (115 e 53 a.C). Ele fundou a primeira empresa de bombeiros em Roma. Teve muito êxito. Ele provocava os incêndios e depois cobrava para apagá-los.
Creio que salta aos olhos: a demanda está no Iraque, que vem sofrendo bombardeios há dez anos. Bush sabe perpetuar uma tradição familiar que seu pai iniciou em 91, descarregando mísseis sobre o Iraque em missões de rotina que não perdoam nem os campos de futebol. É Saddam Hussein que precisa do escudo defensivo. E, se ele se negar a comprar o invento, não haverá outra saída senão bombardear outros países, para diversificar o mercado.
A conquista da Lua. O ''acordo que regula as atividades dos Estados na Lua e em outros corpos celestes'' estabelece que ''nem a superfície nem o subsolo da Lua será prioridade de nenhum Estado, organização nem pessoa''. Os EUA não assinaram esse tratado internacional, e o US Space Command, que coordena suas Forças Armadas está proclamando oficialmente, e publicamente, a necessidade de ''controlar o espaço'' para poder ''dominar'' a Terra. E esses são os termos, palavra mais, palavra menos, com que o presidente Bush explica sua ressurreição da Guerra das Estrelas, iniciada por Reagan.
Isto multiplica as dúvidas e a desconfiança. Os países aliados, reinos menores em torno do reino maior, suspeitam que o monarca do planeta quer apoderar-se da Lua e dos demais astros celestes. Já o imaginam colocando cartazes como ''Propriedade privada'' em todo o espaço sideral.
Talvez, quem sabe, certas dificuldades de expressão não ajudem à boa sorte que merecem suas mensagens: Bush costuma não dizer o que quer dizer, e com frequência, diz o que não quer. Humildemente, sugiro que esclareça suas intenções. Que torne pública a verdade, através de uma declaração escrita por quem sabe e pode, sem acrescentar dúvidas às dúvidas: os EUA querem a Lua para que ali possam reunir-se os que aqui na Terra já não encontram lugar.
Refiro-me aos organismos internacionais que velam pela felicidade de um mundo que lhes nega lugar. Parece uma sopa de letras, mas se trata nada menos do que FMI, BM, OMC, OTAN, UE, G-7 e G-8. Tentaram em Seattle, Washington, Los Angeles, Filadélfia, Praga, Quebec, Gotemburgo e Gênova, e a fúria dos vândalos tornou impossíveis as reuniões. Na Lua não terão ruídos incômodos, e o US Space Command lhes garantirá uma proteção militar diante das ameaças das hostes de Átila. E paro de meter o bedelho. São George está muito atarefado em sua guerra contra o dragão da inveja, e não devemos roubar-lhe o tempo.
- EDUARDO GALEANO, de Montevidéu, é escritor e jornalista uruguaio (IPS)


