Há anos e anos alguns expoentes acadêmicos, da economia e da política se reúnem na cidade suíça de Davos para examinar a situação do mundo. Esses encontros ganharam maior realce e repercussão quando a globalização assaltou este pobre planeta e colocou à análise de todos problemas outros que estavam necessitando de solução urgente.
Não por acaso, um ex-dirigente do Fundo Monetário Internacional (FMI), o mais que conhecido senhor Michel Candessus, anunciou em alto e bom som que o sistema estava enfrentando, nos dias de hoje, uma ameaça sistêmica, a fome. Daí que as grandes lideranças do capital começaram a temer que algumas bastilhas pipocassem em seus quintais, com o povo faminto a clamar por pão pelas ruas das grandes cidades e dos pequenos povoados.
A princípio, algumas organizações não governamentais e comprometidas com aquilo que é importante para a humanidade, tal como o meio ambiente, os índices de natalidade, as armas nucleares, o desemprego a Aids, os exilados políticos e os despossuídos deste mundo, deram início a uma série de protestos para exibir, com crueza a esses acadêmicos e líderes políticos de países endinheirados que a situação estava a exigir análise mais definida.
Esses protestos acabaram por se concretizar numa imensa assembléia de caráter internacional, o Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre, ano passado e, agora, em sua segunda edição. Foi errônea a tentativa de muitos em colocar o Fórum da capital gaúcha como uma antítese ao Fórum Econômico Mundial de Davos. E isto porque, antes de mais nada, social e econômico não compõem dois compartimentos estanques e antiéticos, mas são, a rigor as duas faces de uma mesma realidade.
E, ao que estamos vendo, sejam quais forem as análises e as conclusões a que se chegar em Davos (neste ano, em Nova York) ou em Porto Alegre, basta que se verifique que os dois encontros se realizam segundo palavras de ordem que poderíamos considerar convergentes. Para o encontro de Nova York se trata de uma globalização solidária. Já para Porto Alegre, de que outro mundo é possível.
Se deixarmos de lado considerações ideológicas que, por evidente, estarão em curso numa e noutra cidade, o que importa observar é que os senhores do capital, banqueteando-se com aquilo que lhes parecia o fim da história, logo após a derrocada do primeiro sistema socialista conhecido pela humanidade, já pressentem que esse poder, absoluto, nos primeiros instantes, tem, hoje, limites visíveis e previsíveis, razão porque a globalização que projetaram e de que começaram a se vangloriar, precisa ser adjetivada e, com isto, limitada em seus objetivos mais perversos.
É o que entendemos seja uma mudança relevante em todo o processo da chamada globalização. Vai ela, aos poucos, perdendo o impulso original, alimentada que foi a princípio, pela sensação de que, afinal, apenas o capitalismo pode prevalecer a meio de humanidade. Isto não foi assim. Não o é e nem o poderá ser para sempre. Os conceitos de humanidade, os mais elementares nem por isso menos profundos, rejeitam liminarmente a selvageria do capital e do terror. Porque sabem que somente a fraternidade absoluta entre todos os povos da terra será capaz de fazer o homem, como tem de ser, de fato, o senhor deste planeta.
RUBENS BUENO é deputado federal e presidente do PPS-PR

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