Poderoso só entra em cadeia quando esta é, ao vivo, em transmissão nacional de rádio e TV. Ou: autoridade só será presa quando a griffe Cartier criar um modelo de algemas emergentes para tal figura. Essa sensação de impunidade foi emocionalmente quebrada com a inusitada cena do ex-presidente do Banco Central, Chico Lopes, escoltado em um camburão.
Passada a breve festa cívica sobre o ‘‘momento histórico’’ brasileiro, onde algo novo estaria ocorrendo na moralidade das instituições, surgem as inevitáveis reflexões sobre o ato. Principalmente sobre as diversas faces que uma verdade adquire segundo as circunstâncias.
Embora os religiosos creiam na Verdade Absoluta, para filósofos, políticos, economistas e mais ainda para os artistas, as verdades são muitas. A começar pela milenar definição dos gregos para tragédia: os dois lados têm total razão mas não cedem. Guerras também se nutrem dessa contradição.
O ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes, ao se utilizar das nuances técnicas da defesa em se considerar testemunha e não réu, criou uma apropriação da sua verdade mesmo quando todos os pára-choques de caminhão insinuem: ‘‘Quem cala consente’’.
Mas há uma necessidade frágil de respeito à sua estranha estratégia. Em busca de uma esforçada tentativa, digamos, humanitária para entender seu ato releve-se que ninguém pode depor contra si. Logo, se há no fato de depor algo que depõe contra si, tecnicamente ele está certo. E condenado prévio.
Moralmente, como homem público não era tão recomendável a discutível saída. Homem público tem que viver radicalmente aberto a qualquer investigação. Chico ficou devendo e excitou o circo da notícia para mais um espetáculo em que os jornalistas podem ter dançado em um pequeno detalhe: na manhã de ontem os seus advogados alardeavam que todos os integrantes da CPI já sabiam que o depoimento não ocorreria. E citaram os parágrafos 26 e 27 de um documento previamente entregue.
Daí teríamos que estranhar tanta surpresa sobre algo previsto. Será que embarcamos em mais uma emocional impressão de dignidade enquanto duram os brilhantes spots da mídia? Todos teriam suas verdades. E interesses tão nebulosos que até mesmo seria considerada a manobra como afronta do Poder Judiciário sobre um fórum legislativo, desgastando as CPIs como investigadoras não isentas. Como foi tentada a descaracterização do material colhido via busca domiciliar.
Verdades parciais, factóides ou truques verossímeis como as lágrimas do crocodilo que chorava não por piedade mas por ter comido só duas pessoas e deixado escapar a terceira.
Nós jornalistas temos essa acidentada tarefa de ter de apurar e distinguir entre inúmeros jogos de cena para nos aproximarmos o mais possível das muitas verdades. Isso em meio ao fogo cruzado. Por isso exige-se tanto da mídia mais comprometimento com permanente construção da massa crítica da sociedade. O resto são algemas Cartier. Ou ‘‘Spa Papuda’’ - a penitenciária de Brasília.
- TT CATALÃO é jornalista em Brasília

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