No mundo de alta tecnologia e avanços científicos, o maior desafio ainda é lidar com as emoções - nossas e dos outros. A psicopedagoga Lousanne Arnoldi de Lucca, autora do livro Alfabetização Afetiva, em entrevista à FOLHA fala sobre como administrar nossos sentimentos.

O que é a alfabetização afetiva?
A alfabetização é um fator propulsor do exercício consciente da própria existência, da cidadania e do desenvolvimento da sociedade como um todo. Quando falo em alfabetização afetiva me refiro ao mesmo processo, só que focado na afetividade humana. Para nos entendermos e entendermos as pessoas que nos rodeiam é necessário aprender a ler os códigos emocionais. As emoções são complexas, os sentimentos são específicos. Precisamos aprender a decodificá-los para termos clareza sobre o que acontece em nós e como queremos agir.

Quem tem mais dificuldades com isso, homens ou mulheres?
Somos seres espirituais na aprendizagem do humano. As dificuldades emocionais e/ou sentimentais não são uma questão de gênero e sim de nossa humanidade. Só temos domínio sobre o que conhecemos. O que não conhecemos nos domina. Carl Gustav Jung dizia: ''Quando uma função do inconsciente é negada, rejeitada ou ignorada, ela se volta contra nós e mostra seu lado negativo. Quando ela é aceita, compreendida, é alvo de relacionamento, seu lado positivo tende a aparecer.'' É nossa humanidade que está em processo de aprendizagem. Muitas vezes reprimimos nossos sentimentos, escondemos nossa verdade para sermos aceitos pelo mundo. Traímos nossa individualidade por vaidade, orgulho, arrogância. Os sentimentos reprimidos nos tornam carentes; levam-nos a formar alianças desesperadas, a fazer escolhas destrutivas, a nos alijarmos da vida.

Qualquer pessoa pode se ''alfabetizar''?
Todas as pessoas nascem com potencial para a aprendizagem. Desenvolver esse potencial é o processo de alfabetização. Ele exige motivação, vontade, esforço, paciência e uma boa dose de humildade, pois colocar-se na postura do aprendiz, deixando o orgulho de lado, não é uma tarefa fácil. Homens e mulheres buscam a felicidade afetiva: uma busca legítima e humana. Porém, perdidos em seus próprios labirintos internos confundem os sentimentos e emoções que inevitavelmente surgem nos relacionamentos consigo mesmo e com o outro. Ver-nos, refletido no outro, nos causa espanto e conflito. A aprendizagem neste campo tem como objetivo a conversa interior, a discussão e a reflexão sobre temas que afetam nossas vidas afetivas, clarificando situações, desnudando as ilusões, pondo um pouco do princípio de realidade na nossa vida, além de nos auxiliar no autoconhecimento, pois não podemos entender o outro se não nos entendemos a nós mesmos. Na minha prática percebo que as mulheres buscam mais, são menos resistentes ao processo teórico, porém colocar na prática é mais difícil. Os homens resistem mais, mas quando entendem, colocam na prática mais rapidamente.

Esse tipo de alfabetização não é restrita a relacionamentos amorosos, correto?
O preço que se paga por uma atitude negativa é a constante sensação de enfraquecimento. Quando chegamos a um sentido profundo de autoaceitação somos capazes de desprendimento e espontaneidade. Como resultado do autoconhecimento somos capazes de aceitar a multiplicidade de nosso ser. O amor-próprio requer o mesmo empenho de tempo e de energia que qualquer outra relação. O primeiro relacionamento de nossa vida é conosco mesmo.

Por que o ser humano, em geral, vive numa gangorra afetiva? Como corrigir isso?
Lidar com opostos faz parte da aprendizagem. A vida é feita de luz e sombra. Nossa consciência aprende pelo contraste. Só aprendemos a amar, amando. É no exercício da afetividade que vamos desenvolvendo o nosso potencial de gostar de gostar. Não vejo erros. Vejo ilusões a serem descortinadas. Tudo está certo. Cada um de nós está na busca de si mesmo. Uns com mais ilusões outros com menos, mas todos em processo de desenvolvimento espiritual.

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