Se não houver alertas de um organismo como as Nações Unidas aos governantes do mundo eles imaginam estar sempre fazendo tudo certo e sem reprimendas. Mas esta instituição, mesmo que omissa em muitas questões e nem sempre levada a sério, tem de qualquer modo funcionado como órgão regulador e dá a medida da situação e do comportamento de governos e nações. E quando se fala de nações fala-se sobretudo do desempenho dos primeiros, no mais dos casos pouco dedicados à solução dos problemas sociais.
No Brasil nunca foi diferente, e o enfoque da ONU agora é justamente para este país, apontado por manter as injustiças sociais. Elas são mais centradas na pobreza como um todo, pontuando a insuficiência alimentar e da moradia. Com efeito, num país onde faltam mais de 7 milhões de casas para famílias carentes, que na grande maioria moram em cortiços, e onde a subnutrição ronda milhões de lares, não se pode levantar bandeiras de ufanismo.
O relatório da ONU foi generoso ao não mencionar explicitamente o precário sistema de saúde para as populações pobres, mas isto fica implícito. Outros pontos focalizados são as desigualdades sociais no geral, a ausência de um programa consistente de reforma agrária e o trabalho escravo, este não chegando a ser de grande dimensão, mas há desemprego e baixa remuneração para muitos em face do salário mínimo insuficiente para a vida digna de uma família. Perante as nações mais adiantadas isto é uma forma de escravidão, até porque é algo permanente. O levantamento é feito pelos peritos do Comitê dos Direitos Econômicos e Sociais da ONU e conta também com dados passados pelo próprio sistema oficial e por organizações não-governamentais. Por causa disso o Governo foi convocado para uma sabatina em Genebra. O programa de repasse de cotas mensais de dinheiro às famílias pobres não é descartado pelo relatório, e sugere até que seja ampliado. Esta é uma fórmula que não tira os carentes da pobreza, mas ameniza um pouco seus problemas. Os críticos o condenam por desestimular a busca de melhor ganho por parte de muitos beneficiados. A conclusão da ONU é que os programas sociais no Brasil não são suficientes para combater a pobreza.
A realidade desse relato, se já é um mal em si mesmo, piora o índice de simpatia externa pelo Brasil. Nações mais civilizadas já têm imposto restrições à compra de produtos brasileiros se há suspeita de serem produzidos por via de trabalho escravo ou de menores. O mal maior é saber-se continuamente que governo e sociedade não tratam bem grande parcela de seus compatriotas.

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