Pais de crianças asmáticas mantém sob monitoramento constante a saúde dos pequenos, se a doença está sob controle, se a limpeza da casa está sendo feita conforme as recomendações médicas. Porém, a maior parte não se atenta à higienização correta da boca das crianças após o uso dos medicamentos.
A dentista Karen Parron Fernandes é doutora em Farmacologia pela Universidade de São Paulo (USP) e professora do mestrado em Odontologia da Unopar. Ela participou de pesquisa sobre o efeito dos medicamentos usados no tratamento da asma sobre a saúde bucal das crianças e descobriu que estas são mais vulneráveis a cáries.
Quais os tipos de medicamentos que foram estudados?
Atualmente, o que vem sendo mais usado no tratamento da asma são os corticóides, além deles temos também os broncodilatadores. São grupos bem diferentes e com indicações específicas. Enquanto os corticóides são muito usados como terapia de manutenção e eventualmente de crises agudas, os broncodilatadores ficam mais para as crises.
Há medicamentos que são a combinação dos dois, não é?
Sim. Nosso objetivo principal foi avaliar as condições bucais dos pacientes que têm asma e, a partir disso, tentar estabelecer se existia alguma correlação entre a medicação - não só com o tipo de medicamento, mas também com a duração do tratamento - e o início da doença.
Quais os efeitos colaterais desses medicamentos que a senhora citou?
Observamos que as crianças com asma, entre 12 e 15 anos, têm maior prevalência de cáries, devido a maior quantidade de bactérias cariogênicas na cavidade bucal e pior padrão de higiene oral. Nas crianças mais jovens, observamos redução de fluxo salivar importante, associada aos medicamentos, nesse caso, mais associado aos broncodilatadores. Essa redução já seria fator de risco para a cárie. Observamos também defeitos de desenvolvimento de esmalte dentário, tanto opacidade quanto fluorose. Nas crianças que utilizam corticóides inalatórios, constatamos maior risco para candidose oral.
Explique melhor essa relação entre os medicamentos para a asma e as cáries.
A medicação tem um efeito muito grande sobre o fluxo salivar. Principalmente os broncodilatadores diminuem o fluxo e nessas crianças existe, pelo desequilíbrio da saliva, uma maior tendência a cáries, pela formação da placa bacteriana.
O raciocínio é que uma criança que faça uso dessa medicação deve ter mais cuidado com a higiene bucal?
Sim. Ainda estamos delineando um protocolo de atenção odontológica para essa população. Mas são crianças que necessitam de atenção odontológica prioritária. Precisam reforçar a higiene oral, visitar regularmente o dentista e controlar mais efetivamente a ingestão de açúcares.
A ingestão de água ajuda nessa questão da placa bacteriana?
Não. Isso não vai influenciar tanto. Uma parte dos efeitos colaterais dos corticóides inalatórios está associada a deposição desse medicamento na cavidade bucal. Depois que fazem uso da medicação as crianças precisam fazer uma higienização correta, lavar a boca para tirar esse resíduo. Os médicos orientam, mas temos reforçado isso também.
Não foi objeto do estudo, mas há algum indicativo de que os adultos também possam apresentar os mesmos problemas?
Se pensarmos em questão da redução de saliva, temos observado que nos adultos isso também acontece, o que é um fator de risco para a cárie. Algumas coisas acontecem na formação do dente, como a fluorose e a opacidade, e as crianças mais afetadas foram as que iniciaram a doença e o tratamento mais precoce.®MDBO¯®MDNM¯ Devemos ser muito enfáticos que o paciente não pode ficar sem a medicação, até porque a asma é uma doença grave, com uma série de complicações crônicas, e precisa de tratamento. O que queremos ressaltar é a orientação odontológica para esse paciente.

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