ALERTA 20% das crianças brasileiras são obesas
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segunda-feira, 07 de junho de 2010
Paula Costa Bonini<br>Reportagem Local 
Antes, a maior diversão das crianças era jogar bola, andar de bicicleta e correr com os amigos. Hoje, a distração é outra. A maioria prefere ficar na frente do computador e da televisão. A combinação entre sedentarismo e alimentação inadequada resulta em um índice preocupante: 20% das crianças brasileiras estão obesas. Por consequência, doenças relacionadas ao sobrepeso, como o diabetes e a hipertensão, estão cada vez mais presentes na infância e na adolescência.
O saldo dessas estatísticas é preocupante. Todos os anos, as doenças hipertensivas matam mais de 300 mil brasileiros. Já o diabetes provoca 150 mil vítimas fatais anualmente. A situação é tão grave que a Organização Mundial da Saúde (OMS) prevê que, em 2040, o Brasil será o país com o maior número de mortes provocadas por doenças do coração.
''Diante da gravidade do problema, as atitutes tomadas não são expressivas. Programas assistenciais e educacionais deveriam ser desenvolvidos nas escolas. Se a criança tiver conhecimento sobre saúde e vida saudável, ela vai levar essa mensagem para casa'', alerta o cardiologista Antônio Carlos Palandri Chagas, professor da Universidade de São Paulo (USP) e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina.
Em entrevista à FOLHA, Chagas, que esteve em Londrina na semana passada para participar do 37º Congresso Paranaense de Cardiologia, destaca a importância da mudança de pequenos hábitos para garantir uma vida saudável tanto na infância quanto na idade adulta. Ele aborda ainda as formas de prevenção de doenças como o diabetes e a hipertensão e a influência da genética no aparecimento de enfermidades cardiovasculares.
Por que as doenças cardiovasculares matam tanto no Brasil?
O infarto do miocárdio e o derrame cerebral são as principais causas de morte tanto em homens quanto em mulheres. São doenças que afetam todas as classes. O número de mortes é grande porque a população brasileira tem a hipertensão como um importantíssimo fator de risco. Setenta por cento dos pacientes que são submetidos a cirurgia de revascularização miocárdia (ponte de safena) são hipertensos. Aproximadamente 50% deles têm colesterol elevado, 35% são tabagistas e 30%, diabéticos. A incidência dos fatores de risco é muito elevada.
E nós temos a somatória de novos fatores, como a obesidade. Temos níveis alarmantes de obesos na adolescência, que em um curto espaço de tempo vão virar hipertensos e diabéticos. Outro problema é o sedentarismo. Hoje, a criança, em vez de brincar no campo de futebol, fica na frente do computador consumindo alimentos calóricos e com muito sal.
E o que os pais devem fazer para evitar que seus filhos engordem demais e desenvolvam doenças como o diabetes e a hipertensão?
Os pais devem estar muito atentos. As crianças também precisam ser educadas. Deveríamos desenvolver programas assistenciais e educacionais nas escolas. Se a criança tiver conhecimento sobre saúde e vida saudável, ela vai levar essa mensagem para casa. As atitudes não são expressivas diante da gravidade do problema. O Brasil, que outrora era um país de subnutridos, hoje tem uma taxa bastante elevada de crianças portadoras de alterações de peso. Cerca de 20% das crianças brasileiras são obesas. É um dado bastante preocupante. E a obesidade é o principal fator que leva ao diabetes e à hipertensão.
Então mesmo as crianças subnutridas podem se tornar obesas na adolescência e na vida adulta?
Infelizmente sim. Vale colocar que o adulto não precisa necessariamente ser obeso para ter o colesterol elevado e ser diabético.
Antes, a grande maioria das crianças apresentava diabetes tipo I. Hoje o diabetes tipo II, cuja incidência normalmente é maior após os 40 anos, é agora cada vez mais comum na infância. Por quê?
O diabetes tipo I decorre de um erro inato no metabolismo. A criança pode nascer com a doença ou desenvolvê-la na infância. A tipo II é caracterizada pela falência das células pancreáticas responsáveis por produzir insulina. Isso ocorre principalmente com o passar dos anos, mas vem sendo encontrada na infância devido à mudança no estilo de vida. As crianças se alimentam de forma inadequada e não fazem atividades físicas. E o diabetes juvenil começa a alterar o organismo precocemente.
Quais os cuidados e tratamentos indicados às crianças diabéticas?
Antes de descobrir que o filho é diabético, os pais devem estar atentos ao sobrepeso da criança. Mas, quando o diabetes for diagnosticado, as crianças devem ser encaminhadas a uma Unidade Básica de Saúde, devendo ingressar em um programa de mudança de estilo de vida. Com isso, a criança vai perder peso e fazer uma correção alimentar. Somente depois disso começarão a ser utilizados medicamentos.
É importante ressaltar que, além do diabetes, a obesidade e o sedentarismo podem desencadear hipertensão e alterar o colesterol e o triglícerides nos jovens. É uma evolução natural. Se as crianças e os jovens não forem submetidos precocemente a tratamentos adequados, as doenças que poderiam aparecer na sexta década de vida podem surgir aos 30 anos.
Se os cuidados são simples, por que tanta gente sofre com as doenças relacionadas à obesidade?
Aí entra o papel das sociedades médicas, da imprensa. É preciso levar informações sobre vida saudável às pessoas. A população precisa entender que a vida saudável é possível. São medidas realmente simples. Precisamos nos tornar ativos, controlar a alimentação.
Qual é o grau de influência da genética no surgimento de doenças cardiovasculares?
A questão genética é muito importante para o desenvolvimento das doenças cardiovasculares. Quem teve o pai ou um irmão que infartou aos 30, 40 anos de idade, deve precocemente buscar orientação cardiovascular. Aproximadamente um quarto das pessoas com doença cardiovascular tem casos na família.
Temos níveis alarmantes de obesos na adolescência
População precisa entender que vida saudável é possível


