ALERTA - Suicídio é um problema de saúde pública
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sábado, 19 de abril de 2014
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 
Suicídio: um tema que ainda é tabu entre as famílias tem colocado especialistas em alerta. Isso porquê, o número de óbitos por este motivo aumentou 95% em 20 anos, de acordo com levantamento realizado pelo Datasus, banco de dados do Sistema Único de Saúde (SUS), em 1990 e 2010, resultando em cerca de 25 mortes ao dia. Neste mesmo período, somente entre os brasileiros com idade entre 15 a 29 anos, o índice subiu em 30%, tornando-se a terceira principal causa de morte das pessoas dessa faixa, atrás apenas dos acidentes e homicídios. Mais um fator de preocupação, já que, mundo afora, os suicídios juvenis são menos frequentes que os suicídios adultos. Para a médica psiquiatra Alexandrina Meleiro, do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), especialista em suicídio, é preciso falar sobre o assunto e quebrar preconceitos. "Há um grande medo dos familiares e amigos de que se falarem no assunto irão induzir a pessoa a cometer suicídio. Na verdade, ela vê como um alívio a possibilidade de compartilhar a angústia com alguém", pontua.
Há uma explicação para o aumento de suicídio nos últimos 20 anos, sobretudo entre jovens?
Ainda não sabemos se, de fato, aumentou o número de suicídios ou houve melhora nas estatísticas. Mas a experiência clínica é que tem aumentando, sim, principalmente entre os adolescentes. Seja por causa da maior facilidade ao uso de drogas, mais lares desfeitos, instabilidade, sociedade de consumo que valoriza o "ter" e não o "ser", um valor menor à vida. Isso faz que, diante de frustrações, de problemas, os adolescentes, em vez de procurarem alternativas, acabam vendo o suicídio como uma alternativa mais fácil.
A senhora disse que as estatísticas, hoje, talvez sejam mais eficientes. Não havia no Brasil até então?
No Brasil, não. As estatísticas no Brasil começaram na década de 50, com um pouco de adultos. Mas foi da década de 80 para cá que deu-se de maneira mais frequente. Por isso que temos que nos questionar: está acontecendo mais ou estamos registrando mais? Porém, para a sensação clínica é que, realmente, está acontecendo mais. Mas temos que considerar que pode ser uma melhor documentação. Mesmo assim, ainda achamos que, no Brasil, a taxa é subestimada.
Há alguma diferenciação de idade? O suicídio ocorre mais em alguma faixa etária?
A faixa com maior incidência é de 15 a 25 anos de idade. Depois tem um pico maior na terceira idade, entre os idosos. Mas, também, tem aumentado entre a faixa de 45 e 50 anos.
Existe um perfil padrão ou de comportamento de pessoas que acabam se suicidando?
A maioria dos suicidas tem um perfeccionismo, são rígidos, exigentes, não aceitam a flexibilidade e querem a solução perfeita para determinadas situações. Às vezes, a pessoa encontra uma solução que não é ideal, mas que é a possível para aquele momento. E, se ela é perfeccionista e rígida, diante da desesperança, busca a solução no término da própria vida. Além disso, são, em geral, pessoas que não têm grandes vínculos com a família e apresentam desajuste no trabalho. Não possui o que chamamos de "fatores de proteção", que são elementos que fazem a pessoa a não optar pela morte.
Podemos destacar mais fatores de risco?
Os principais fatores são a antecedência de tentativa de suicídio. Este é um motivo para acender o farol de alerta. Com relação ao gênero, os homens suicidam-se mais que as mulheres. Estas, por sua vez, tentam mais vezes, na proporção de 2 para 1. Aí vamos para a idade: é o adolescente e o adulto jovem. Depois são algumas profissões com alto risco como policial, médicos e profissões de impacto de estresse. Depois, vamos para a categoria religião. Se a pessoa tem algum vínculo religioso, ela está mais protegida do suicídio, pois religiões como o protestantismo e o judaísmo não aceitam o suicídio.
Existem causas principais que levam ao suicídio?
A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta a existência de doenças mentais como a primeira causa de suicídio, seguido de abuso de drogas - incluindo o álcool - esquizofrenia e transtorno de personalidade. Se a pessoa tem duas patologias ao mesmo tempo, como depressão e abuso de drogas, aumenta ainda mais a probabilidade do risco.
Muito se fala em sinais que o suicida dá antes de cometer o ato. Como as pessoas ao redor podem perceber?
Todo mundo tem a falsa ideia de que quem fala que vai cometer suicídio é porque não quer se matar. Isso não é verdade. Cerca de 80% das pessoas que suicidaram-se tinham dado avisos, mas, muitas vezes, não foi percebido e valorizado pelos familiares e amigos. Sempre que a pessoa falar sobre isso - lembrando que pode ser para chamar a atenção ou por manipulação no primeiro momento, temos que considerar que é um grito de ajuda. Quando esta fala: "Não quero mais viver, queria estar morto", e começa a arrumar os documentos, fazer despedida, comprar arma, veneno... são situações que vão dando indícios de que o sujeito está deixando de valorizar a vida e já está buscando e planejando a morte. O suicida começa com o desejo de morrer, que vai se tornando uma ideação. Daí, vira um plano, a busca de como fazer e todo o ritual de despedida e execução. Quando está nessa progressão da fase do desejo, da intenção e o planejamento, é nesse tempo que a pessoa vai dando sinais. Temos que valorizar mudanças de comportamento, estranheza, o falar muito em querer estar morto. Temos que dar ouvidos a esses tipos de comunicação. Pessoas vão dizer: "Imagina, ela não vai fazer isso." Infelizmente, a pessoa faz, sim.
E quando dizem que foi de uma hora para outra. Essa tese não se comprova?
Num primeiro momento, até mesmo porque a pessoa sente-se culpada, é dizer que não percebeu. Mas depois da fase do choque, começa a recordar de momentos de comportamento estranho do suicida, de maior ingestão de álcool. Para se ter uma ideia, quando começamos a fazer o que chamamos de autópsia psicológica com familiares e do trabalho, percebemos que o suicida vinha apresentando mudança de comportamento nos três meses antecedentes. Claro que existe o suicida impulsivo, quando descobre que foi traído pelo cônjuge, perdeu o emprego, problemas com a situação econômica, mas grande parte é planejado e leva em torno de dois a três meses de elaboração. Por isso, sempre dizemos que a família, amigos e os próprios médicos devem estar alertas. Cerca de 60 a 70% dos suicidas, aqueles que efetivamente cometem o ato com sucesso, tinham procurado ajuda médica nos meses anteriores.
E como a família pode prevenir o suicídio quando é percebido? É falando ou não sobre o assunto?
Sim, é falar sobre o assunto e perguntar. Muitas pessoas dizem: Vou perguntar e falar o quê dependendo da resposta? Se o indivíduo responder que já pensou em cometer suicídio, a solução é procurar ajuda. Há um grande medo de se perguntar com o receio de que se possa induzir a pessoa a cometer suicídio. Quando perguntamos à pessoa que pensa em se matar, na verdade, ela vê como uma alívio a possibilidade de compartilhar a angústia com alguém. É nesse momento que deve haver o gesto de ajuda, a procura por um profissional que possa devolvê-la a vontade viver e abortar a ideia.
Ainda há muito preconceito sobre o tema. Hoje, o suicídio já é tratado como problema de saúde pública?
Sem dúvida que esse é um problema de saúde pública. Se analisarmos da década de 50 até agora, havia inúmeras doenças que eram graves e reduziu-se a mortalidade, como aids, câncer. Mas o suicídio, infelizmente, continua numa linha reta.
Mas isso aponta para alguma ineficiência da medicina?
Não é ineficiência da medicina, pois esta avançou, mas do fato de encararmos isso como, de fato, um problema. É o tabu, é o estigma, é o medo de falar. Quando alguém morre por suicídio, ela afeta, pelo menos, de sete a dez pessoas ao seu redor entre familiares, amigos e pessoas do trabalho.


